segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Véu da Vampira

Eles eram impiedosos. Carregavam imagens de morte para dentro da mente das pessoas, e isso era normal. Normal em todas as épocas e ainda alimentavam-se dos impulsos destrutivos dos humanos.
Humanos. Eles vagavam pelas terras abrindo o caminho para ela passar, aquela que todos os seres temiam, de todos os planos existentes, carregava no olhar o vórtice das almas, seus filhos, projetariam a construção de toda a perfeição como condutores da grande massa. Despertava, desvelava, alimentava docemente com sua existência o equilíbrio de tudo que tocava. Ela mesma não conhecia seu verdadeiro potencial, era mais uma na multidão, mas, alguns dos muitos que viam o reflexo desse farol a buscavam para deter a consciência de si, mas ainda não a alcançaram plena como deveria para que tudo fosse realizado, o que temiam.
Ela estava sentada á penteadeira, observando seu próprio reflexo, não conseguia reconhecê-lo, mas era seu próprio rosto que estava ali, o mesmo que estava naquele retrato antigo, sobre o móvel agora empoeirado pelo abandono. Lucilia, de olhos marejados, insistentes por uma emoção que não tinha mais no peito, não destilava lágrimas, não mais. Era algo mai metálico e desconfortável, que forçosamente não refletia mais, agora sim... Fosse ela agora a ocupar aquela voz que repetia sempre o mesmo nome, e o pensamento que encarcerou eternamente o mesmo rosto, não são mais qualidades de uma vida. O tempo leva tudo, não leva, porém a sinceridade contida na alma... Precisava partir naquele instante, o seu dever a esperava, cumprir alimentar o que por imperícia a devorasse por completo, o que lhe restasse de si, mas o que lhe importava? Ainda se esforçava por lembrar o que ainda a impulsionava, se não lhe restava nada, ou desconhecia o que sentia, não tinha nome, não naquele instante, naquele dia realizaria, então revelaria, enfim, seu destino e tornaria as rédeas ás mãos ao invés do abismo... Não queria fazer comparações com coisas cotidianas da vida, não seria e também parecia, um sopro num castelo de cartas, analogismo perturbador que traduz na praticidade a fragilidade de algo que deveria ser forte, e não é.... Seria abandonar e ao mesmo tempo a presença constante, depender, acorrentada, e ainda ter amplas asas, então sentir e estar sem significado ou direção, em sua reflexão esmaga os próprios conflitos, respira a última lembrança em vida: “Como quiser!” Ela caminhou até a rua vazia, de uma madrugada quente, neste lugar tão familiar, tão inserido em seu passado. E neste mundo análogo ao seu agora, observa as pessoas ilhadas nos seus egos e a construírem suas vidas ilusórias, idealizadas através do que apenas palpável e material. Como é belo o esquecimento, maldita consciência...! “Desculpe Lucília, mas não preciso mais de você, venho para desfazer este engano, de que há certo grau de amor, que não deveria estar acontecendo, porque não pertence mais a este mundo feito de matéria, mas a um passado, como reminiscências de algo que acabou junto com a vida que tinha no passado. O desprendimento está fora do lugar, projeta isso para o agora com relação aos verdadeiros significados, são apenas sensações que se vão conforme os fatos incidem e o que permanece é o que está em si, que continua, não devia prender-se assim a mim... diga adeus ... não era isso que você queria?”... Esta voz não lhe saía da lembrança, mas eram ecos que permaneciam naquele lugar, e não faziam mais parte de sua realidade, agora em sua existência havia a inércia definitiva ao tempo...
Olhou pela janela e viu que era o momento de partir, nestes lapsos onde imergia na busca de algo que restou de sua vida humana. Na rua, lhe esperavam para mais uma noite de caça, como pensava que fosse aquela vez, a sustentar seus instintos, de certa forma, pela compreensão distorcida de um deleite crescente e devastador dentro de si...
Na calçada seus passos eram os únicos que ouvia, no silêncio de uma noite de lua cheia, seu lado negro ainda exposto, contrastava a claridade envolvente, seus olhos perfuravam o negrume das ruelas estreitas que serpenteavam pela rua principal, a única iluminada pelos postes de lâmpadas amarelas que pareciam fazer brotar do chão o que restasse de seus conviveres costumeiros das noites de solitária caminhada. Na próxima esquina seu destino, recostado na parede do prédio parecia distraído, ela aproximou-se enquanto ele, imóvel absorvia a brisa fresca, um cheiro úmido de uma chuva eminente se fazia, e o som dos passos de Lucília, fez mudar a postura e recebê-la apenas com um olhar de desaprovação pela demora.
- Distraiu-se hoje?
- Como sempre caríssimo, minhas reflexões e lapsos...
- Não se canse. - enlaçando sua cintura e acariciando o rosto dela com o polegar - ainda tens muito a fazer, acompanhe-me.
Saíram a passos mais rápidos, Chronos tinha planos mais ousados naquela noite, Lucília previa situações de onde não retornaria o que explicaria sua imersão em seu passado, de modo tão repentino, talvez, presumia uma despedida do que restou de sua passagem pela terra... Enquanto do outro lado da cidade, o seu alvo agia...
Duas pessoas corriam pelas ruas desertas, naquela noite e após uma chuva que transformou o pôr-do-sol em uma noite súbita e profunda, o chão brilhava sob as luzes noturnas, e refletia os passos apressados e largos daquele homem, acompanhado de outro que lhe alcançava rapidamente, não diziam nada um ao outro, o silêncio de suas vozes era quebrado pelo som de seus passos. Pararam, em frente a uma casa de arquitetura colonial do século XVII, olham para o céu onde as nuvens enfim revelam a brilhante lua cheia, um deles recebe aquela presença lunar com um arfar em sua respiração declinando a cabeça para trás levemente, cerra os olhos, fareja e escuta as presenças do interior daquela morada, onde uma das janelas do piso superior revela uma luz fraca. O aroma era de rosas, estas que se revelavam através das cortinas translúcidas, sobre uma mesinha próxima no interior de um quarto. Uma sombra transita contra esta luz. Os dois homens se entreolham e um deles empalidece, mas com um gesto de consentimento vira-se a observar, vigiando os arredores, o outro avança contra a janela, levado pelo aroma, não mais das rosas, mas do corpo feminino que provocava aquela sombra. Logo a encontra, não havia como discriminar qual força o atraía mais, a fome ou a sensualidade, que poderia provar dos dois como uma suave ambrosia, sobre a pele tão alva, doces e rubros momentos, lamentava-se por ser demasiado breve a degustação de cada perfumado néctar, de vida e deleite sublimado como se o traspassar de cada presa sacramentasse sua existência sobre a terra. Não era preciso justificar, nem ser totalmente consciente, apenas cumprir sua função.
Um som do lado de fora do prédio aguça seus sentidos, fazendo-o abandonar o frágil corpo com ainda algumas gotas de vida, olha para trás com certo ar de ternura. Ainda aqueles olhos vidrados de pupilas dilatadas observando o vazio que agora o preenche e pulsa em suas veias, suspira como se lamentasse, não por sua presa, mas pelos breves momentos, desejados tão ardentemente que fossem permanentes. Em segundos estava entre as luzes e frescor da rua, renovado de sua urgência, mas não via seu companheiro, ele procura alarmado por traços da presença e, nenhuma, sequer insinuação de movimento. Olha novamente para a lua, sendo encoberta pelas pesadas nuvens, prenunciando outra chuva. ...
Lucília iria, enfim, encontrar aquele que habitava seus ressentimentos, e suas lembranças...começa a chover, uma garoa tímida, mas constante, perfumada dos ares dos jardins florescidos daquela primavera, tudo se acalma rapidamente, o frescor aviva os sentidos ainda mais.
Chronos, que havia se adiantado, reaparece com um vampiro desacordado nos braços, Lucília olha em seu rosto, o reconhece, é um dos vassalos de Círius, aquele que a trouxe e também a levará.
- Ele virá logo, fique preparada querida.
Círius percebeu logo a aproximação de seus opositores, e foi imediatamente ao encontro.
Ao defrontar-se com Lucília ouviu o que planejava ouvir, como previu.
- Eu não temo meu destino. Disse Lucília com atitudes de esperar uma investida, ou um ataque violento.
Círios sorriu suas presas ainda manchadas com o sangue de sua vítima recente, olhando para Chronos, como se os dois combinassem. Ao invés disso falou:
- É a lua certa.
Em seguida recomeça a chuva, os seres impassíveis permanecem indiferentes a tudo que não seja seus objetivos, Lucília percebe sem mesmo haver palavras ou gestos que caíra em uma armadilha, mas uma tentativa vâ de deter o que a espera, o que está nela. Seu antigo mestre queria punição para sua vassala rebelde, Chronos, um traidor.
- Não pode ser, é impossível submetê-la! - Não era mais a Lucília que ele havia abandonado a própria sorte, mesmo junto de Chronos e Círius, eles eram incapazes de detê-la.
Sim, com certeza era a lua certa, o ano novo da era vampirica começou.
A chuva não parava, apenas alterava sua composição, chovia, sobre eles chovia sangue.
Lucília, detia sua consciência plena,diz:
- Feliz ano Novo.

domingo, 20 de junho de 2010

Eclipse

Um céu onde a luz fugia aos olhares atentos, refletia no medo dos aldeões o abalo do pânico crescente...
- É o fim do mundo... Vamos todos morrer...! (dizia um velho desdentado, de rosto enrugado pela vida difícil daqueles tempos)
Uma criança chorava em meio ao silêncio mórbido que se transformava em murmúrios e lamentos à medida que o dia se transformava em noite.
- Estamos sendo punidos pelos Deuses. Nos esquecemos deles, e estão se vingando! (clamava uma mulher entre lágrimas)
Ao mesmo tempo em que esta comoção ocorria, caminhava a passos lentos um homem puxando um cavalo, calmamente e com um meio sorriso, observava a ignorância dos víveres daquela terra, ele era um mouro, detinha o conhecimento sobre astronomia que os povos da península ibérica, ele sabia se tentasse explicar o assunto seria levado à religiosidade, como tudo que não é compreendido é temido, e o que é temido pode certamente ser destruído. Com essa consicência resolveu calar-se e observar.
As pessoas, comovidas por aquela intrusão da natureza na rotina de suas vidas nem perceberam a presença do visitante estrangeiro. Elas se retiravam nervosamente e se dispersavam cada qual em busca de seu abrigo e suas rezas.A escuridão aumentava e a vereda única do lugarejo tornava-se também inóspito como o céu de luz, o mouro queria apreciar o fenômeno, naquele dia contra um céu sem núvens. Mas não percebeu que mais alguém também ficara por perto, a observar no mesmo intuito que ele.
O homem percebeu um movimento nas sombras, um tímido som de passos em meio murmúrios abafados vindos das casas. Ele se adianta e interpela puxando pelo braço a jovem de cabelos vermelhos de olhar severo.
- Me solte, estranho...!! Como ousa ....?
- Mulher! Não tem medo como os outros? Que tipo de pessoa estás a demonstrar? Saiba que isso lhe é perigoso?
- Ha, ha... Não temo nada que seja incompreensível, nem mesmo a ti...
- Então explique, eu quero saber.... (ainda a apertar o braço frágil, que débilmente tentava se desvencilhar daquelas mãos fortes que pesadamente a mantinha sob o crivo de suas perguntas)
- Queres mesmo saber? Aquele fenômeno no céu eu sabia que aconteceria.... é por minha causa... apenas minha....
- Então diga-me o que aconteceu..
Ariadne volta o olhar para o eclipse como se esperasse um sinal de concordância para a revelação que fará... nesse momento encontram os olhos de seu interlocutor que a solta de imediato.- Aquela mulher quase acertou, quase.Aquela reflexão vem à tona como se trouxesse um acréscimo à curiosidade do viajante, que instigado questiona para que continue.Então ela abaixa a cabeça e sorri sem que ele veja seu esboçar de alguma emoção e recorda:
-Anistad, meu pai, infelizmente.... próspero fazendeiro....
Lá está ele, nas lembranças narradas e revividas....os passos solitários ecoavam pelos corredores escuros daquele porão úmido. A adega estava parcialmente alagada por causa daqueles dias seguidos de chuva torrencial. Não parava, não existia mais nada que escapasse seco daquele ambiente que dominava toda a região. Os dilúvios das monções de outubro estavam implacáveis aquele ano. Anistad observava o nível da água que subia, todos os seus pertences e provisões ali estocadas estavam perdidas.Dirigiu-se para o pátio da casa principal da fazenda de onde visualizava os campos com vastos vinhedos, vagarosamente sucumbindo ao desastre do tempo sem que ele pudesse fazer nada para impedir. Seu olhar irado contra as nuvens pesadas que acumulavam impiedosas, a sinalizarem com seus relâmpagos o descaso para com a desgraça daquele mortal.
- Riam, deuses perversos! – praguejava o agricultor tomado pela insanidade de sua impotência frente à ação calamitosa da natureza, com seus punhos cerrados perante os céus. Seus olhos semicerrados frente a chuva, que pareciam escaldar seu rosto contraído pela dor.Não tinha outra escolha, senão esperar. Virou-se, sem se importar mais com o que acontecia a sua volta, caminhou pesaroso para o interior da casa.
Não imaginava que aquela noite seria diferente e mudaria o seu destino.Ele estava só na casa, pois sua família havia se mudado para a região mais alta. O que lhe acompanhava eram os sons intermináveis e enlouquecedores da chuva infindável, um asilo, talvez formadora de alucinações.Naquela noite a chuva diminuiu, acalentando os sentidos de Anistad, por isso, achegou-se à varanda deformada da casa alquebrada pela falta de cuidados.
Avistou em meio os clarões furtivos da noite escura uma figura se aproximar a cavalo.Um homem pedia pouso para descanso. Ele não via o rosto, mas ávido por companhia, ter a quem se lamentar de sua desgraça além dos deuses era um alento. Convidou-o, era a assinatura para um começo mais tormentoso do que imaginaria em toda a sua vida.A figura vestida de capa e chapéu se aproximou enquanto Anistad tentava visualizar o rosto de seu convidado. Era um homem alto, magro, pálido, de feições suaves, parecia um estrangeiro, tinha um sotaque questionável de sua origem ao agradecer a acolhida. Adentraram a sala principal, ampla da construção colonial, onde o passo sobre a madeira contorcida pela umidade excessiva era quase inaudível. Sentaram-se às cadeiras e foi oferecida uma bebida.
O fogo da lareira trazia um ambiente barroco ao recinto.
- Qual é o nome de meu convidado? – perguntava polido, mas com um olhar desconfiado.O homem ergueu o olhar após um grande gole à taça de vinho, portando um sorriso empedrado pela sua impassividade, respondia dentro do prazer em sua degustação.
- Zarrel. Ótimo vinho, senhor....?
- Anistad. Aprecie o último de uma safra perdida.... – suspira olhando para a janela que cintilava frente ao campo de videiras. Levanta-se e observa.
O homem olha para mesma direção e elogia:
- Sua plantação é de invejável produção, onde estão os outros?
- Decadência. Invejável? Solitude de uma queda desta altura!O homem esboçou um sorriso e se aproximou de Anistad.
- Desejas a morte?
- O que mais me resta perante tanta desgraça?
- És um homem próspero, o que acreditas que possa ter lhe causado tantos castigos dos deuses?- Desprezei-os quando minha vida estava em ascensão, agora praguejo contra eles na decadência. O que esperaria um ser que se condenou frente a sua falta de honra?De cabeça baixa frente ao vidro da janela refletia o retrato de um vencido.
O homem que o visitava na verdade era um demônio enviado pelos deuses para abatê-lo da forma mais terrível. Agora, mais nada o impedia, ali, desatento, enfraquecido espiritualmente, restava punir sua carne para abrandar a ira divina.Zarrel ergueu-se, seu porte parecia mais alto que antes, seu rosto se desfigurou, de suas mãos saíam garras luminosas as quais na fraca luz pareciam uma coleção de facas afiadas. Os deuses tinham lhe dado Anistad para saciar sua sede de sangue.Traidores de sua benevolência eram punidos severamente pelo destino.
Quando Tífon ia desferir o seu golpe inicial adentra pela porta uma figura que o faz retrair instantaneamente para sua forma humana.Anistad vira-se assustado para o homem e depois para quem entrava, aguçou sua visão e notou que era sua filha, Ariadne, que correu em sua direção e, ao vê-lo ainda bem voltou-se para o estranho e esbravejou.
- Vieste buscá-lo, eu sei, mas enfrentarás antes a mim.O homem abaixa a cabeça e solta um riso alto contorcido pela sua mutação evidente.
- Bruxa, seus esforços não impedirão que minha missão seja cumprida. Por sua insolência levarei sua alma escravizada a mim.O mortal sem honra foi abatido rapidamente sob o olhar de terror da própria filha. Depois ele se vira toma a mulher em seus braços e desfaz sua forma para a humana, atira a cabeça para trás como se fosse alvejado por alguma arma e a solta atirando-a para um canto do recinto, sobre uma cadeira que se quebra sob o peso da queda.- Seu guardião será destruído!Surge entre ele e Ariadne a figura de um elemental de dimensões consideráveis à força que reunia num esforço ínfimo para sua sobrevivência, materializado através de seu pensamento dirigido para a vingança e o terror de ver seu próprio pai estraçalhado por aquele demônio. Então, duas feras se batem num duelo que por ventura daria o tempo para ela se recuperar da agressão e fugir. Ergueu-se titubeante, mas quando dirigia seus débeis passos para a porta da frente parou e virou-se, enquanto seu guardião sucumbia perante a força de Zarrel. Entendeu que não haveria fuga, nem lugar que a protegesse, resolveu ficar. Esperou até que tudo acabasse, e o ser elemental se desfizesse e o vencedor, ainda mais irado voltasse contra ela, que esperava impassível, sem medo.No momento em que se dirigia para atacá-la, observou a mudança, parou hesitante com suas garras a centímetros da garganta alva. Mas ele permanecia ainda em guarda, pois sabia que aquela aparência frágil guardava um poder, que ele reconheceu ali, combatendo aquele guardião. Ele desejou esse poder para ele, ela percebeu pelo olhar cobiçoso o que ele pretendia.
continua....

domingo, 15 de março de 2009

O Anjo da Guerra

Se você acredita em anjos, conheça uma estória antiga sobre a luta pelo equilíbrio dos elementos. Uma tradição secreta existente há milênios levada ao conhecimento de um pequeno grupo de monges na idade média, debelando todos os conceitos sobre as forças que nos cercam e envolvem o mundo.
Na Europa do séc.XIII, num mosteiro localizando no alto de uma montanha, posicionado no centro de um amplo vale rodeado de uma cordilheira escarpada. O prédio, parecido com um castelo, de arquitetura românica, tendo muralhas e um grande pátio por trás dos muros, dois prédios sendo um deles uma igreja, abrigando cerca de quarenta homens em regime de reclusão. Era costume abrigarem viajantes dentro de seus portões, apesar da rígida transição religiosa que sofria aquela época.
Numa noite, aproximadamente ao pôr do sol, dotado de um céu encharcado de vermelho, pintando os prédios obscuros com sua luz, envolto em um ar úmido e pesado por causa do prenúncio de chuva. Surgiu aos portões um cavaleiro pedindo abrigo, ao abri-los, na perspectiva dos monges que, curiosos foram recebê-lo via-se somente a silhueta de um homem a cavalo enquanto o sol poente em seus rostos ofuscava causava uma ilusão de desenhar um par de asas amplas e negras nas laterais do cavalo.
O cavaleiro recurvava-se sobre a sela enquanto um dos monges o ajudava a descer. O cavalo era ricamente adornado, com um peitoral de metal desenhava no centro um símbolo sagrado, uma fênix rodeada de raios de luz. O cavaleiro que parecia estar ferido vestia uma estranha armadura, revelando-se uma mulher a qual era descrita assim: o cabelo longo castanho, preso a um rabo de cavalo alto com metal adornado. Uma espécie de colar inteiriço de metal modelo egípcio cheio de símbolos gravados, braceletes de metal, perneiras normalmente usadas por guerreiros romanos, armas de um fio agudíssimo.
Ela só dizia em tom de urgência: a igreja. Empunhou sua espada dirigindo-a contra os homens espantados.
O abade adiantou se protestando e pedindo que não profanasse o lugar sagrado. Observou pelo sangue que gotejava vigorosamente dentre as fendas da armadura pelo corpo e os cortes em seus membros que não seria possível sobreviver muito tempo, e talvez necessitasse de um alento espiritual para os seus momentos finais. Ela penetrou seu olhar bem dentro de seus olhos, como se hipnoticamente o convencesse que deveria atender as suas vontades ele ordenou que a deixassem passar.
Ela se adiantou para a porta principal da entrada do templo e se trancou, deixando a todos do lado de fora, correram às portas laterais e, estranhamente estavam trancadas.
De repente observou uma coluna de luz descer do céu até a igreja, visivelmente luminosa naquele início de noite. Enquanto lá dentro a guerreira celeste se regenerava de seus ferimentos através de um mecanismo existente no colar o qual acionado com um toque em determinados símbolos. Ao mesmo tempo proferia orações, as letras desenhadas no colar acendiam e uma luz descia do teto sobre seu corpo.
Essa peça em particular era o seu elo com os poderes divinos. Segundo a lenda, era transmitido para um sucessor a cada mil anos ou quando antes dos cinqüenta anos regenerados se ferisse gravemente. Isso significava que não poderia fazer aquele procedimento de novo, caso viesse a se ferir mortalmente. Teria que encontrar uma sucessora. O colar era ligado ao seu corpo através de cravos que penetravam a carne e também mantinha sua vida e poder durante o passar dos séculos. A regeneração só funciona em solo sagrado e o formato dos templos, assim como o são construídos até hoje, propositalmente projetados para servir também a este desígnio.
A arma era uma espada, de lâmina incrivelmente afiada, bordado com inscrições em seu centro.
Durante o processo, os monges se amontoavam nas vidraças para ver o que estava acontecendo. Alguns ajoelhavam trêmulos. Lá dentro, os ferimentos expostos e desnudos se fechavam enquanto se difundia um perfume de flores e um som agudo como de muitas vozes sussurrando. Ao terminar, um grande silêncio, as portas se destrancam e ela sai.
O abade aproxima-se, temerosamente, empunhando uma cruz e perguntando se era uma criatura de Deus ou das Trevas. Sua ausência de resposta, tão intrigante quanto os fatos o fez relaxar e formulou outra pergunta. Antes que resolvesse fazê-la, a mulher de armadura falou com ele em particular, pois decidiu dar uma explicação e requisitar colaboração. Disse que era o solo sagrado mais próximo para que se recuperasse de sua última luta. No entanto avisou: “Eles virão, os inimigos que combatera estão ao encalço”. Assustando o homem que olhava inquieto para o colar, continuando disse que seu último combate será ali, naquele pátio e, que ele seria incumbido de encontrar uma sucessora. Passou então a descrever os detalhes da missão que confiou, e que os dragões a colocariam em sua presença e dariam um sinal para identificá-la, determinando também que ele voltaria ali em dois dias.
O religioso perguntou: “Quem são aqueles que chegarão?”
Respondeu apenas: “Aqueles de Outras Esferas”. “Eu luto contra o desequilíbrio entre os mundos, sou apenas portadora do instrumento que promove e guarda”. “E quando ele se torna desigual, principalmente nesses tempos sombrios eu venho.” “Eu tenho novecentos anos de idade e, sei que se aproxima o momento mais difícil dos séculos, sustentado pelo fio da espada concretizarei o ciclo deste ministério.” “Esta foi a última cura que os Desuses me mandaram, agora, um novo guardião de carne e osso tomará o meu lugar.”
O homem, envolvido pelo poder daquelas palavras ergueu-se e saiu. Do lado de fora do cômodo, os outros se amontoavam preocupados e curiosos a imaginarem milhares de coisas, sabatinando o abade. Ele detinha uma expressão serena e apenas murmurou: “Tenho uma missão importante.”
A mulher foi até a porta para dar uma última instrução: “Tome o meu cavalo, ele o levará até o lugar certo.” No dia seguinte ele partiu.
Ao amanhecer, ela permanecia no lado externo do prédio, de costas para o portão, olhando em direção ao muro dos fundos do grande pátio principal direcionando o olhar para o céu no horizonte, onde se formavam negras nuvens. Ficou lá, parada imóvel, sem beber, nem comer. Apenas esperando, algo que parecia estar com as nuvens. Enquanto isso, os frades procuravam oferecer comida, bebida, que deixavam aos seus pés. Evitavam olhar para o seu rosto, extremamente belo e fora do padrão da época e daquela cultura, com expressão séria, e um olhar que parecia despir suas almas como se enxergasse todos os segredos mais íntimos.
Na manhã seguinte, tudo envolta rapidamente vestiu-se de negro junto de uma tormenta sem chuva, apenas com um vento forte e morno repleto de relâmpagos. Ela empunhou sua espada, em posição de ataque enquanto pouco a frente da muralha a nuvem negra abaixou até perto do chão e dela saíram cavaleiros horrendos fortemente armados galopando em sua direção. Iniciaram então a luta, a figura a pé parecia em grande desvantagem, mas abatia os inimigos com muita facilidade. Todo aquele combate sangrento era assistido pelos monges, os quais se escondiam apavorados. Observavam detalhes terríveis daqueles seres monstruosos que caíam mutilados pela espada poderosa que fazia daquela guerreira uma fúria que se iluminava naquela escuridão crescente. O número dos monstros reduziu-se a dois, os quais esperavam sua vez de avançarem. Então o primeiro se adiantou, parecia mais poderoso que os demais, até quando a lutadora fora alvejada por um golpe, mas em seguida conseguiu executar o inimigo. Imediatamente lançou-se o último deles sobre ela a partir de sua montaria iniciando um duelo difícil, equilibrado, como deveria ser. E, antes que eles continuassem a luta, seres desapareceram assim como a nuvem desintegraram-se sob o sol, os restos dos outros derrotados incendiaram-se ao toque da luz em seu ápice no céu. A guerreira cravou a espada à terra e se ajoelhou afligida pelo golpe mortal que sofrera.
Adentra pelo portão de entrada, o abade, trazendo uma jovem consigo. Apeia, e junto dela se aproxima da guerreira.
Era o momento mais surpreendente que assistiria um mortal, a morte de um guardião encarnado.
Eles foram ao interior da igreja, horas depois voltando apenas a jovem, portando os trajes e equipamentos de sua antecessora, a qual desaparecera.
O abade nunca comentou o que se passou dentro do templo, nem aos seus superiores. A jovem anônima partiu logo em seguida, no mesmo pôr de sol que se iniciou esta estória.
Esse manuscrito foi encontrado nas ruínas deste mosteiro em 1935, durante a ocupação nazista na Europa e destruída junto com vários outros livros que foram encontrados lá. Foi lido por mim, Carl Grunger só uma vez, pois sei ler em latim, e nunca o esqueci. Até hoje me intriga. Surgindo a pergunta em minha mente sempre que observo um por de sol, com meus 70 anos de idade, tudo que vivi e vivo, se essas energias realmente influenciam nossas vidas, assim como deve ter mudado a vida daqueles monges.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

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Rostos na Janela II (continuação)



A chuva inicia como uma névoa leve, entrecortada pela iluminação prateada, desenha no rosto do Vampiro um contorno expressivo, tenso, enquanto caminhava, pouco se importando com as intempéries da natureza, concentrava-se em detectar sinais de alguma presença.
Percebeu dentro do murmúrio da chuva movimentos sutis entre as sombras das casas, era seu acompanhante, outro de sua espécie, de uma casta mais rústica e resistente, mas, naquele momento ele se encontrava vulnerável, pois estava esforçando-se a movimentar, surpreendeu. Ele não estava visívelmente ferido, mas Claudius sabia que ele fora atacado por algo que conhecia o ponto fraco, apesar de Tanatus ser treinado o suficiente para debelar qualquer ameaça que se aproximasse.
- Tanatus! O que houve? - enquanto tentava verificar o estado, se havia ferimentos - Está ferido? - Tanatus articulava, tentando falar, mas sua voz não saía.
Claudius o ergueu nos braços e levou para um lugar seguro.
(continua)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Rostos na Janela


Duas pessoas corriam pelas ruas desertas da cidade, naquela madrugada e após uma chuva que transformou o pôr-de-sol em uma noite súbita e profunda, o chão brilhava sob as luzes noturnas, e refletia os passos apressados e largos daquele homem, acompanhado de outro que lhe alcançava rapidamente, não diziam nada um ao outro, o silêncio de suas vozes era quebrado pelo som de seus passos. Pararam, em frente a uma casa de arquitetura colonial do século XVII, olham para o céu onde as nuvens enfim revelam a brilhante lua cheia, um deles recebe aquela presença lunar com um arfar em sua respiração declinando a cabeça para trás levemente, cerra os olhos, fareja e escuta as presenças do interior daquela morada, onde uma das janelas do piso superior revela uma luz fraca. O aroma era de rosas, estas que se revelavam através das cortinas translúcidas, sobre uma mesinha próxima no interior de um quarto. Uma sombra transita contra esta luz. Os dois homens se entreolham e um deles empalidece, mas com um gesto de consentimento vira-se a observar, vigiando os arredores, o outro avança contra a janela, levado pelo aroma, não mais das rosas, mas do corpo feminino que provocava aquela sombra. Logo a encontra, não havia como discriminar qual força o atraía mais, a fome ou a sensualidade, que poderia provar dos dois como uma suave ambrosía, sobre a pele tão alva, doces e rubros momentos, lamentava-se por ser demasiado breve a degustação de cada perfumado néctar, de vida e deleite sublimado como se o traspassar de cada presa sacramentasse sua existência sobre a terra. Não era preciso justificar, nem ser totalmente consciente, apenas cumprir sua função. Um som do lado de fora do prédio aguça seus sentidos, fazendo-o abandonar o frágil corpo com ainda algumas gotas de vida, olha para trás com certo ar de ternura. Ainda aqueles olhos vidrados de pupilas dilatadas observando o vazio que agora o preenche e pulsa em suas veias, suspira como se lamentasse, não por sua presa, mas pelos breves momentos, desejados tão ardentemente que fossem permanentes. Em segundos estava entre as luzes e frescor da rua, renovado de sua urgência, mas não via seu companheiro, procura alarmado por traços da presença dele e, nenhuma, sequer insinuação de movimento. Olha novamente para a lua, sendo encoberta pelas pesadas nuvens, prenunciando outra chuva. ... continua...

terça-feira, 8 de abril de 2008

A Estrangeira



Avalon, naquela noite sentiu um ímpeto de caçar, uma fome incomum invadia seu corpo, um instinto para matar mais intenso do que nas outras noites. Encontrou-se com outros predadores e lançou-se às ruas onde se aprofundava cada vez mais a escuridão.
Laura e sua missão, levar os cavalos para a propriedade de La Fountaine, nos arredores da cidade de Callais, na França. A época era séc. XIX. Ela possuía um criatório que desenvolvia raças de cavalos com pelagem exótica na América, estava na fase final de desenvolver uma raça derivada do quarto de milha e appaloosa, ela chamava de paint horse, era veterinária e se empenhava muito em seu trabalho. Era uma das poucas mulheres, na época a ter uma formação acadêmica superior, conquistada apenas por homens. Por ser filha única e herdeira dos negócios de seu pai, era obrigada a ter um olhar crítico e agressivo, estava prestes a se tornar noiva do filho de um outro fazendeiro próspero, uma união planejada pela família que ela repudiava, por isso abraçou esse compromisso. Recebeu uma proposta de apoio ao seu projeto de pesquisa em troca de levar alguns exemplares para a propriedade de um investidor chamado Dagbert Saintclair interessado na beleza dos animais.
Seu navio tinha atracado no final da tarde e o desembarque dos animais era lento e complicado. Estava exausta com os afazeres na noite anterior ao atravessarem um temporal em alto mar, enquanto se aproximavam do canal da mancha, custando-lhe uma noite inteira sem dormir, a tratar dos cavalos, porém esforçava-se em comandar a transferência do lote precioso para o chateau que havia alugado para se instalar com acomodações apropriadas. Mesmo assim ainda necessitava levá-los daquele lugar, pois não tinha arranjo para as dez cabeças que conduzia. Vestiu seu traje de viagem, a roupa de montaria conservando as características da região e país onde habitava.
Encilhou seu cavalo e com dois auxiliares eventuais que contratou ali no cais começou a conduzi-los pelas ruas crescentemente vazias da cidade, pois a noite estava avançando e o clima noturno dominante.
Quando passava pela rua principal do centro da cidade um dos ajudantes distraiu-se e deixou um desgarrado afugentar-se pelas vielas escuras. Ela ordena que ele fique junto da tropa à espera enquanto partiu ao encalço rapidamente. Vinte minutos depois retornou puxando o animal fugitivo. No mesmo momento em que chegava junto ao agrupamento Avalon passava por perto observando curioso, a princípio a conformação diferenciada dos cavalos. Surpreende-se com a visão enigmática daquela mulher de ímpetos imperativos, porém de uma aparência frágil que não combinava com suas atitudes, diante do subalterno que era repreendido duramente. Em conseqüência o homem reage com violência, tentando roubar um dos cavalos. E, procurando impedi-lo, Laura é derrubada da montaria caindo sobre umas madeiras amontoadas ali perto, provocando uns ferimentos no ombro. Mas ela levanta-se rápida e voltando à sela parte ao encalço do ladrão, enquanto o outro ajudante segurava o restante dos animais, bastante confuso com a perturbação, acalmando a pequena manada. Avalon acompanha o fato com interesse irremediável no vigor da amazona e a visão e o cheiro do ferimento que avermelhou sua blusa branca, avivando seus impulsos predatórios, e a energia que demonstrava em resistir corajosamente àquela situação. Ele pede para que os outros caçadores noturnos acerquem-se do local para que pudessem subjugá-la com mais precisão, visto a rapidez de reação que esboçava sua presa já escolhida.
Ela cavalga rapidamente em perseguição, mas ele desaparece na escuridão que se aprofunda com a madrugada aproximando-se. Diminuiu a marcha do animal, arquejou sobre a sela para tomar fôlego e também por causa da dor no ombro ferido, parou por uns instantes, nisso, ouve dentro do silêncio alguns sons que a desperta, e voltar-se para sua obrigação, voltando pelo mesmo caminho.
Ela não queria arriscar perder o restante dos animais, voltou para o ajudante que a esperava atento aos outros cavalos. Parecia mais honesto. Vendo-a voltar ainda mais abatida, o rapaz apeia e aguarda instruções, Laura manda que retorne ao cavalo e continue devagar, pois o Chateau não era muito longe.
Era a oportunidade para Avalon investir contra sua presa. Aproximou-se oferecendo ajuda, e estendendo o chapéu que ela havia derrubado, não conseguia desviar seu olhar sedento do ferimento. Laura estava tão atordoada pelos problemas que lhe acometiam, logo aceitou apesar da percepção turva por essa névoa de acontecimentos seus sentidos avisavam certa atração. Ao receber a resposta de Laura, Avalon reconhece um sotaque estrangeiro, extremamente charmoso e diferenciado para os seus ouvidos, imaginava o aproveitamento do restante dos atributos que ainda não conhece na pessoa de Laura. Ela apeia e entrega-lhe as rédeas de seu cavalo, pegando uma corda para apanhar outro animal da manada. Sua atenção estava dispersa, ele sentia isso, aquela confusão nela o perturbava. Avalon vê as gotas de sangue salientes e cintilantes na sela, discretamente captura essas gotas com a ponta dos dedos e leva-os aos lábios. Ele monta e observa que Laura improvisara um cabresto com a corda e montava à pelo. Ele achava um pouco ilógico ela confiar assim nele depois de ter sido traída por outro estranho, pois parecia que ela sabia algo mais que lhe escapara da própria percepção.
Seguiram pelas ruas, conduzindo os cavalos, Avalon discretamente faz um gesto para os outros que o acompanhavam para que o deixasse. Ela ia numa lateral da manada e ele do outro, enquanto o auxiliar ia à frente. Ele a observava, notando que ela estava cada vez mais indefesa, como ele queria. Planejava, quando estivessem a sós fazer um ataque certeiro. Aos poucos e conforme iam se aproximando do destino, Laura ia ficando cada vez mais para trás.
Entraram no piquete do lugar de destino, que estava àquela altura deserto. Laura ainda vinha com o cavalo a passo até ele parar e ela se curvar sobre o dorso dele, o rapaz correu ao encontro dela e puxou para dentro do celeiro, a ajudou a descer. O ajudante recebeu pagamento das mãos de Avalon , declarou que cuidaria dela, e foi dispensado.
Sua manga e gola da roupa estavam encharcadas, isso lhe exauriu de uma vez as forças. Avalon estava preparado para arrebatá-la.
Segurou-a nos braços e a deitou sobre um palheiro. Abriu sua roupa revelando seus ombros nus e de um lado o vermelho atraente que brotava exuberante, clamava por seus lábios. Sugou o ferimento. Laura já estava inconsciente. Havia um silêncio angustioso quebrado pelo som dos animais. Ele leva eternos minutos saboreando bem devagar aquela energia que lhe vinha em porções generosas. Não deixaria desperdiçar aquele inquietante e esperado momento, por menor que fosse para ele era tão preciosa quanto sua própria vida. Resolveu não esgotá-la de uma vez, desejou fazer uma segunda investida, pois a energia absorvida naquela hora e naquelas condições era atraente de outras formas evidentes, seus olhos percorriam o corpo que oscilava numa respiração rápida, escutava o coração pulsar sua carótida sobressaltada pelo estresse. O seu êxtase debruçado sobre a volúpia inconsciente, instintiva, doce como o sabor em sua boca. Beijou-a. O cheiro de sangue em seu corpo se misturava ao feromônio, enquanto ele a tocava degustando cada gota, desejava , precisava de mais. Tira sua camisa e a rasga em tiras, limpa o ferimento e a enfaixa, a recosta no palheiro e a veste. Retira-se pesaroso, com o rubro do vindouro nascer do sol aquarelando os céus, com seu peito nu sob o casaco, olha para trás uma vez e desaparece.
Laura acorda na manhã seguinte, e percebe seu ferimento enfaixado e, parado à sua frente um homem perguntando quem era. Ela se identifica, em tom baixo, pois não conseguia sequer articular palavras precisas, nem se movimentar, faltava-lhe ar . O homem chama uma mulher, que era a empregada da casa principal e ordena que o ajude a levá-la para dentro do prédio, a carrega nos braços e manda que chame um médico.
No quarto, a mulher, que se apresentou como Salet preparou um banho. Laura perguntou sobre o homem que a ajudou, se ele voltaria, pois o rosto dele não saía da mente. Após ser examinada pelo médico e tratada com o que prescrevera recuperou-se depressa. Pensava em descobrir o nome daquele homem, porque naquela situação não havia nem perguntado. A mulher não sabia responder ou não queria, parecia perturbada por sua condição pouco comum para uma mulher, ser decidida e independente.
Permaneceu deitada até a noite, quando mais recomposta desceu ao andar de baixo. Perguntou ao homem, o caseiro que se chamava Anton, se sua bagagem já havia sido entregue. Ele afirma que sim mostrando o baú num canto. Ela pede que ele leve para o quarto, sendo atendida prontamente. Ela sobe logo em seguida e se veste com um traje mais social, um vestido comum.
É servido o jantar e logo em seguida ela sai até as cocheiras para examinar os animais quando escuta uma voz aveludada de um homem a pouca distancia dizendo que ela estava devendo uma camisa a ele. Ela abaixa a cabeça sorrindo, mas não se vira, dizendo polidamente: “A quem devo a honra?” Ele responde: “Avalon, lord Avalon”, ela se vira e troca um olhar doce, ele sentia, concluindo tão doce quanto o sangue, pensava. Ela continua, enquanto ele a cumprimenta beijando-lhe a mão: “Devo-lhe agradecer por sacrificar suas vestes por mim?” “Se mi lady sentir-se agradecida, não mais do que eu por conhecê-la agora de um modo totalmente surpreendente.” “Está decepcionado pela falta de agressividade, ou pelo excesso de delicadeza?” “São dois lados opostos que conheci seguidamente, talvez seja por isso.”
Caminharam juntos ao longo das cocheiras, enquanto conversava ela ia examinando animal por animal. Ele fez uma observação: “Você é dedicada no que faz.” “Faz parte de meu trabalho, sou veterinária e esses animais estão sob minha responsabilidade.” “E sobre aquele que foi roubado.” “Com certeza sairá do meu pagamento. Que desperdício, deveria ter trazido minha equipe, mas a minha auto-suficiência me condenou.” “Hora, veja por este ângulo, se os trouxesse, eu não estaria aqui.” Ela desmancha o ar preocupado e declara: “Você tem o poder de convencer qualquer um.” Ele se coloca sério por ela sentir seu poder dominante sobre a vontade humana. “Como concluiu isso?” Ela já examinava o último animal. Não respondeu de imediato, suspirou e foi até uma tina para lavar suas mãos e antebraços. “Bem, digamos que nossos sentimentos são como essas gotas de água que estão em minhas mãos, elas se formam e passeiam pela pele, você as sente.” Molha a mão dele. “Agora você sente o mesmo que eu.” Isso serviu como mensagem para ele que inconscientemente ela sabia que ele a havia drenado. “Você é muito enigmática.” Falou com um sorriso discreto nos lábios. “Lorde Avalon também é um homem misterioso. O que deseja?” Uma pergunta que lhe causou um impulso para atacá-la novamente, mas deteve-se, sabendo que havia mais pessoas na casa. “Vim convidá-la para um jantar, mas vejo que está ocupada.” “Não seja por isso, uma taça de vinho, talvez, gostaria de conhecer a cidade”. “Amanhã à noite?” “Sim, estarei esperando ansiosa.” Ela esboça uma expressão de contentamento captada pelo brilho no olhar, que ele capturava avidamente como se quisesse detê-lo só para si. Estaria ele atraído sexualmente ou fascinado pelo alimento tão exótico, descobriria na próxima noite.
Durante o dia todo Laura não conseguia tirar aqueles olhos de sua mente, que pareciam despi-la, porém pensava preocupada sobre o que ele tinha feito com ela enquanto estava inconsciente, estremecia ao imaginar, procuraria tirar essa informação durante o jantar na cidade àquela noite.
Ela já estava arrumada, olhava-se no espelho grande do quarto, mas não se contentava com aqueles trajes pesados, ao qual não fazia parte o seu modo de viver atual. Mas ela estava elegante e discreta o suficiente para andar pelas ruas sem chamar a atenção, ela queria estar no lugar de observadora, não de observada.
Ele chega com uma carruagem a qual encosta na frente da casa, ela embarca. Ele a cumprimenta e a elogia, pergunta se já se sente melhor. Ela sorri discretamente. “Preocupado?” Ela ajeita o xale, fechando-o mais sobre o ombro. Sentia o olhar percorrer o decote que aparecia na fresta do tecido delicado. Ele percebe o gesto de desaprovação dela e comenta: “Vou levá-la num belo lugar, charmoso e discreto.” Ela devolve outro olhar de desaprovação, fazendo-o intrigar-se. “Eu gostaria de saber quais suas intenções”. “Estou acompanhando-o simplesmente por ajudar-me naquele momento difícil...”
Antes que terminasse ele a interrompe: “Medo?” Ela se embaraça e cora, desviando o olhar para o movimento de pessoas na rua. Ele tenta quebrar o gelo e se aproximar do mesmo modo que a envolveu na noite anterior. Avalon muda de lugar sentando-se ao lado dela quando antes de frente na carruagem com quatro lugares.
Olham-se enquanto o magnetismo os remete um contra o outro num beijo sensual, ele enlaça a cintura de Laura puxando-a contra o seu corpo sentindo o coração acelerado, o calor. Por onde passavam era um acesso arborizado para a casa dele. Depois do beijo ela pergunta: “O que você quer de mim?” Ele destampa o seu anel que continha um lancete e a espeta no pescoço, ela desmaia em segundos. Depois ele responde: “Eu quero você.”