terça-feira, 8 de abril de 2008

A Estrangeira



Avalon, naquela noite sentiu um ímpeto de caçar, uma fome incomum invadia seu corpo, um instinto para matar mais intenso do que nas outras noites. Encontrou-se com outros predadores e lançou-se às ruas onde se aprofundava cada vez mais a escuridão.
Laura e sua missão, levar os cavalos para a propriedade de La Fountaine, nos arredores da cidade de Callais, na França. A época era séc. XIX. Ela possuía um criatório que desenvolvia raças de cavalos com pelagem exótica na América, estava na fase final de desenvolver uma raça derivada do quarto de milha e appaloosa, ela chamava de paint horse, era veterinária e se empenhava muito em seu trabalho. Era uma das poucas mulheres, na época a ter uma formação acadêmica superior, conquistada apenas por homens. Por ser filha única e herdeira dos negócios de seu pai, era obrigada a ter um olhar crítico e agressivo, estava prestes a se tornar noiva do filho de um outro fazendeiro próspero, uma união planejada pela família que ela repudiava, por isso abraçou esse compromisso. Recebeu uma proposta de apoio ao seu projeto de pesquisa em troca de levar alguns exemplares para a propriedade de um investidor chamado Dagbert Saintclair interessado na beleza dos animais.
Seu navio tinha atracado no final da tarde e o desembarque dos animais era lento e complicado. Estava exausta com os afazeres na noite anterior ao atravessarem um temporal em alto mar, enquanto se aproximavam do canal da mancha, custando-lhe uma noite inteira sem dormir, a tratar dos cavalos, porém esforçava-se em comandar a transferência do lote precioso para o chateau que havia alugado para se instalar com acomodações apropriadas. Mesmo assim ainda necessitava levá-los daquele lugar, pois não tinha arranjo para as dez cabeças que conduzia. Vestiu seu traje de viagem, a roupa de montaria conservando as características da região e país onde habitava.
Encilhou seu cavalo e com dois auxiliares eventuais que contratou ali no cais começou a conduzi-los pelas ruas crescentemente vazias da cidade, pois a noite estava avançando e o clima noturno dominante.
Quando passava pela rua principal do centro da cidade um dos ajudantes distraiu-se e deixou um desgarrado afugentar-se pelas vielas escuras. Ela ordena que ele fique junto da tropa à espera enquanto partiu ao encalço rapidamente. Vinte minutos depois retornou puxando o animal fugitivo. No mesmo momento em que chegava junto ao agrupamento Avalon passava por perto observando curioso, a princípio a conformação diferenciada dos cavalos. Surpreende-se com a visão enigmática daquela mulher de ímpetos imperativos, porém de uma aparência frágil que não combinava com suas atitudes, diante do subalterno que era repreendido duramente. Em conseqüência o homem reage com violência, tentando roubar um dos cavalos. E, procurando impedi-lo, Laura é derrubada da montaria caindo sobre umas madeiras amontoadas ali perto, provocando uns ferimentos no ombro. Mas ela levanta-se rápida e voltando à sela parte ao encalço do ladrão, enquanto o outro ajudante segurava o restante dos animais, bastante confuso com a perturbação, acalmando a pequena manada. Avalon acompanha o fato com interesse irremediável no vigor da amazona e a visão e o cheiro do ferimento que avermelhou sua blusa branca, avivando seus impulsos predatórios, e a energia que demonstrava em resistir corajosamente àquela situação. Ele pede para que os outros caçadores noturnos acerquem-se do local para que pudessem subjugá-la com mais precisão, visto a rapidez de reação que esboçava sua presa já escolhida.
Ela cavalga rapidamente em perseguição, mas ele desaparece na escuridão que se aprofunda com a madrugada aproximando-se. Diminuiu a marcha do animal, arquejou sobre a sela para tomar fôlego e também por causa da dor no ombro ferido, parou por uns instantes, nisso, ouve dentro do silêncio alguns sons que a desperta, e voltar-se para sua obrigação, voltando pelo mesmo caminho.
Ela não queria arriscar perder o restante dos animais, voltou para o ajudante que a esperava atento aos outros cavalos. Parecia mais honesto. Vendo-a voltar ainda mais abatida, o rapaz apeia e aguarda instruções, Laura manda que retorne ao cavalo e continue devagar, pois o Chateau não era muito longe.
Era a oportunidade para Avalon investir contra sua presa. Aproximou-se oferecendo ajuda, e estendendo o chapéu que ela havia derrubado, não conseguia desviar seu olhar sedento do ferimento. Laura estava tão atordoada pelos problemas que lhe acometiam, logo aceitou apesar da percepção turva por essa névoa de acontecimentos seus sentidos avisavam certa atração. Ao receber a resposta de Laura, Avalon reconhece um sotaque estrangeiro, extremamente charmoso e diferenciado para os seus ouvidos, imaginava o aproveitamento do restante dos atributos que ainda não conhece na pessoa de Laura. Ela apeia e entrega-lhe as rédeas de seu cavalo, pegando uma corda para apanhar outro animal da manada. Sua atenção estava dispersa, ele sentia isso, aquela confusão nela o perturbava. Avalon vê as gotas de sangue salientes e cintilantes na sela, discretamente captura essas gotas com a ponta dos dedos e leva-os aos lábios. Ele monta e observa que Laura improvisara um cabresto com a corda e montava à pelo. Ele achava um pouco ilógico ela confiar assim nele depois de ter sido traída por outro estranho, pois parecia que ela sabia algo mais que lhe escapara da própria percepção.
Seguiram pelas ruas, conduzindo os cavalos, Avalon discretamente faz um gesto para os outros que o acompanhavam para que o deixasse. Ela ia numa lateral da manada e ele do outro, enquanto o auxiliar ia à frente. Ele a observava, notando que ela estava cada vez mais indefesa, como ele queria. Planejava, quando estivessem a sós fazer um ataque certeiro. Aos poucos e conforme iam se aproximando do destino, Laura ia ficando cada vez mais para trás.
Entraram no piquete do lugar de destino, que estava àquela altura deserto. Laura ainda vinha com o cavalo a passo até ele parar e ela se curvar sobre o dorso dele, o rapaz correu ao encontro dela e puxou para dentro do celeiro, a ajudou a descer. O ajudante recebeu pagamento das mãos de Avalon , declarou que cuidaria dela, e foi dispensado.
Sua manga e gola da roupa estavam encharcadas, isso lhe exauriu de uma vez as forças. Avalon estava preparado para arrebatá-la.
Segurou-a nos braços e a deitou sobre um palheiro. Abriu sua roupa revelando seus ombros nus e de um lado o vermelho atraente que brotava exuberante, clamava por seus lábios. Sugou o ferimento. Laura já estava inconsciente. Havia um silêncio angustioso quebrado pelo som dos animais. Ele leva eternos minutos saboreando bem devagar aquela energia que lhe vinha em porções generosas. Não deixaria desperdiçar aquele inquietante e esperado momento, por menor que fosse para ele era tão preciosa quanto sua própria vida. Resolveu não esgotá-la de uma vez, desejou fazer uma segunda investida, pois a energia absorvida naquela hora e naquelas condições era atraente de outras formas evidentes, seus olhos percorriam o corpo que oscilava numa respiração rápida, escutava o coração pulsar sua carótida sobressaltada pelo estresse. O seu êxtase debruçado sobre a volúpia inconsciente, instintiva, doce como o sabor em sua boca. Beijou-a. O cheiro de sangue em seu corpo se misturava ao feromônio, enquanto ele a tocava degustando cada gota, desejava , precisava de mais. Tira sua camisa e a rasga em tiras, limpa o ferimento e a enfaixa, a recosta no palheiro e a veste. Retira-se pesaroso, com o rubro do vindouro nascer do sol aquarelando os céus, com seu peito nu sob o casaco, olha para trás uma vez e desaparece.
Laura acorda na manhã seguinte, e percebe seu ferimento enfaixado e, parado à sua frente um homem perguntando quem era. Ela se identifica, em tom baixo, pois não conseguia sequer articular palavras precisas, nem se movimentar, faltava-lhe ar . O homem chama uma mulher, que era a empregada da casa principal e ordena que o ajude a levá-la para dentro do prédio, a carrega nos braços e manda que chame um médico.
No quarto, a mulher, que se apresentou como Salet preparou um banho. Laura perguntou sobre o homem que a ajudou, se ele voltaria, pois o rosto dele não saía da mente. Após ser examinada pelo médico e tratada com o que prescrevera recuperou-se depressa. Pensava em descobrir o nome daquele homem, porque naquela situação não havia nem perguntado. A mulher não sabia responder ou não queria, parecia perturbada por sua condição pouco comum para uma mulher, ser decidida e independente.
Permaneceu deitada até a noite, quando mais recomposta desceu ao andar de baixo. Perguntou ao homem, o caseiro que se chamava Anton, se sua bagagem já havia sido entregue. Ele afirma que sim mostrando o baú num canto. Ela pede que ele leve para o quarto, sendo atendida prontamente. Ela sobe logo em seguida e se veste com um traje mais social, um vestido comum.
É servido o jantar e logo em seguida ela sai até as cocheiras para examinar os animais quando escuta uma voz aveludada de um homem a pouca distancia dizendo que ela estava devendo uma camisa a ele. Ela abaixa a cabeça sorrindo, mas não se vira, dizendo polidamente: “A quem devo a honra?” Ele responde: “Avalon, lord Avalon”, ela se vira e troca um olhar doce, ele sentia, concluindo tão doce quanto o sangue, pensava. Ela continua, enquanto ele a cumprimenta beijando-lhe a mão: “Devo-lhe agradecer por sacrificar suas vestes por mim?” “Se mi lady sentir-se agradecida, não mais do que eu por conhecê-la agora de um modo totalmente surpreendente.” “Está decepcionado pela falta de agressividade, ou pelo excesso de delicadeza?” “São dois lados opostos que conheci seguidamente, talvez seja por isso.”
Caminharam juntos ao longo das cocheiras, enquanto conversava ela ia examinando animal por animal. Ele fez uma observação: “Você é dedicada no que faz.” “Faz parte de meu trabalho, sou veterinária e esses animais estão sob minha responsabilidade.” “E sobre aquele que foi roubado.” “Com certeza sairá do meu pagamento. Que desperdício, deveria ter trazido minha equipe, mas a minha auto-suficiência me condenou.” “Hora, veja por este ângulo, se os trouxesse, eu não estaria aqui.” Ela desmancha o ar preocupado e declara: “Você tem o poder de convencer qualquer um.” Ele se coloca sério por ela sentir seu poder dominante sobre a vontade humana. “Como concluiu isso?” Ela já examinava o último animal. Não respondeu de imediato, suspirou e foi até uma tina para lavar suas mãos e antebraços. “Bem, digamos que nossos sentimentos são como essas gotas de água que estão em minhas mãos, elas se formam e passeiam pela pele, você as sente.” Molha a mão dele. “Agora você sente o mesmo que eu.” Isso serviu como mensagem para ele que inconscientemente ela sabia que ele a havia drenado. “Você é muito enigmática.” Falou com um sorriso discreto nos lábios. “Lorde Avalon também é um homem misterioso. O que deseja?” Uma pergunta que lhe causou um impulso para atacá-la novamente, mas deteve-se, sabendo que havia mais pessoas na casa. “Vim convidá-la para um jantar, mas vejo que está ocupada.” “Não seja por isso, uma taça de vinho, talvez, gostaria de conhecer a cidade”. “Amanhã à noite?” “Sim, estarei esperando ansiosa.” Ela esboça uma expressão de contentamento captada pelo brilho no olhar, que ele capturava avidamente como se quisesse detê-lo só para si. Estaria ele atraído sexualmente ou fascinado pelo alimento tão exótico, descobriria na próxima noite.
Durante o dia todo Laura não conseguia tirar aqueles olhos de sua mente, que pareciam despi-la, porém pensava preocupada sobre o que ele tinha feito com ela enquanto estava inconsciente, estremecia ao imaginar, procuraria tirar essa informação durante o jantar na cidade àquela noite.
Ela já estava arrumada, olhava-se no espelho grande do quarto, mas não se contentava com aqueles trajes pesados, ao qual não fazia parte o seu modo de viver atual. Mas ela estava elegante e discreta o suficiente para andar pelas ruas sem chamar a atenção, ela queria estar no lugar de observadora, não de observada.
Ele chega com uma carruagem a qual encosta na frente da casa, ela embarca. Ele a cumprimenta e a elogia, pergunta se já se sente melhor. Ela sorri discretamente. “Preocupado?” Ela ajeita o xale, fechando-o mais sobre o ombro. Sentia o olhar percorrer o decote que aparecia na fresta do tecido delicado. Ele percebe o gesto de desaprovação dela e comenta: “Vou levá-la num belo lugar, charmoso e discreto.” Ela devolve outro olhar de desaprovação, fazendo-o intrigar-se. “Eu gostaria de saber quais suas intenções”. “Estou acompanhando-o simplesmente por ajudar-me naquele momento difícil...”
Antes que terminasse ele a interrompe: “Medo?” Ela se embaraça e cora, desviando o olhar para o movimento de pessoas na rua. Ele tenta quebrar o gelo e se aproximar do mesmo modo que a envolveu na noite anterior. Avalon muda de lugar sentando-se ao lado dela quando antes de frente na carruagem com quatro lugares.
Olham-se enquanto o magnetismo os remete um contra o outro num beijo sensual, ele enlaça a cintura de Laura puxando-a contra o seu corpo sentindo o coração acelerado, o calor. Por onde passavam era um acesso arborizado para a casa dele. Depois do beijo ela pergunta: “O que você quer de mim?” Ele destampa o seu anel que continha um lancete e a espeta no pescoço, ela desmaia em segundos. Depois ele responde: “Eu quero você.”

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Herança Eterna



8Sonia cavalgava pelo planalto descampado de grama verde que se estendia até o mar, sentia a brisa acre da maresia surgir sutilmente, era fresco e convidativo para permanecer no passeio por mais algumas horas., além de possuir um pôr-do-sol digno de uma dramática pintura barroca. Aqueles dias de descanso eram primordiais, pois estava se preparando para uma tarefa difícil.
A morte de seu tio lhe pesara de um modo exaustivo. Lembrava-se da carta do advogado que recebera naquela manhã: A leitura do testamento vai ser daqui a dois dias. E teria que viajar para Berlim no dia seguinte. Aqueles descampados do litoral Catarinense eram as únicas paisagens que conhecia. Sentia-se atormentada com a angústia e a ansiedade misturadas porque não compreendia a razão pela qual ele lhe incluíra como herdeira principal, sendo que os parentes mais próximos dele eram cidadãos alemães e estavam lá, mais perto dele e quase do outro lado do mundo, tão isolado. Pressentia sérios problemas no porvir.
Na casa da propriedade da família, chega uma telegrama com a seguinte mensagem: Chego esta noite, ass. Dr. Herman Slaüter. Era o curador e amigo de seu tio, sabia disso através de uma carta que recebera do tio um mês atrás, citando este homem e declarando total confiança nele. O empregado da fazenda colocou-a sobre a mesinha da entrada para quando Laura voltasse do passeio.
Algo lhe tocava naquela luz, enquanto parava seu cavalo frente à paisagem, observava o brilho furtivo do sol sobre as águas do mar, parecia torná-la sonolenta, dentro de um silêncio repentino, sentiu-se tonta, apeou, apoiou-se na sela e respirou fundo, mas sentia alguém se aproximar e lhe roubar as forças. Uma dor de cabeça que a fez sentar-se no chão e deitar sobre a grama.
O tempo passa e a noite chega, mas Laura não. Bem mais tarde aparece Hermam aos portões da propriedade, num carro alugado no aeroporto, foi atendido pelo empregado, que preocupado o coloca a par do desaparecimento de sua patroa, avisando também que outros funcionários do local já haviam partido em procura. Hermam era um homem de feições duras e com uma palidez típica do leste europeu, no momento corado, o lábio com um vermelho que não lhe parecia próprio, o mordomo observou temeroso, enquanto ele respondia às suas explicações com um meio sorriso, como se já soubesse que haveria demora. Foi conduzido até a sala de estar para aguardar, possuía uma exultação contida por sua frieza européia enquanto só, assentado numa cadeira passava os dedos pelos lábios para enxugar uma ínfima gota vermelha ancorada no canto, a suspirar prazerozamente.
Com seus olhos semi-serrados Laura olhava o céu avermelhado e sentia uma presença que não conseguia definir, uma sombra pousou sobre seu corpo, era o seu cavalo a pastar logo a diante. Ela sentiu algo tocá-la, mãos frias, mas seus movimentos estavam limitados em respirar pesadamente como se estivesse num sono profundo, mas inexplicavelmente estava consciente ao que se passava à volta. Alguém a erguia e lhe desnudava os ombros e em seguida uma ardência sucedida de um calor que se concentrava e refugava por longos minutos seguidos, enquanto sua percepção ia diminuindo lentamente e uma escuridão e silêncio a envolver completamente. Logo depois aquelas sensações a abandonaram, juntamente com o surgimento da luminosidade noturna de uma lua cheia que a cobria com a calidêz mórbida de uma morte desejada, e ela desejava mais, sentia, ansiava por morrer de novo. Desperta com um som ao longe, era o tropel de vários cavalos e vozes chamando o seu nome, tenta se mover, mas era difícil, sendo encontrada porque seu cavalo ainda estava por perto. Ela vê as lanternas se aproximarem e se concentrarem em seus olhos. “Dona Laura!” diz um dos homens. “A senhora está machucada? Consegue se mexer?” Ela apenas meneia a cabeça afirmativamente e se ergue devagar, ajudada por Jardel, o tratador dos cavalos, que busca a sua montaria e a ajuda a subir, partindo, junto dos outros que o acompanhavam em direção à sede da propriedade.
Hermam olha o relógio e ouve sons de muitos cavalos chegando, vê o empregado correr para a porta da frente abrindo-a nervosamente e lançando-se para o exterior fracamente iluminado. Jardel já havia descido do cavalo e a carregava nos braços pela porta adentro, chamando por Tatiana, uma das mulheres que já cuidava da casa há muitos anos e praticamente viu Laura crescer. O que era surpreendente para eles, era que a patroa nunca tinha sofrido acidente quando saía a cavalo. Ela foi imediatamente cuidar de Laura, que estava desacordada, o mordomo pega no telefone a fim de chamar o médico, mas Hermam intervém, dizendo que é médico e poderá ajudar. Os empregados se entreolham desconfiados, mas pela urgência da situação, concordam e pedem que chegue ao quarto.
O misterioso visitante, em tom austero, e com um sotaque germânico, pergunta se há indícios de contusão visíveis, enquanto tirava seu paletó e o colocava sobre uma cadeira juntamente com sua maleta. Aproxima-se, olhando para Laura com uma expressão ambiciosa, a toca no rosto e diz uma palavra em alemão que faz a herdeira abrir os olhos devagar. O pretenso médico diz à empregada que traga compressas de água fria, e a mulher se retira para buscar o material requisitado. Então, estando as sós com seu alvo, lhe diz ao ouvido: “Eu trouxe o seu legado.”

sábado, 26 de janeiro de 2008

Fome

lEla estava só, precisava sair daquele prédio, mas a escuridão ocultava a saída. A tempestade tornou a vizinhança inteira mergulhada na noite mais profunda. Aquela sexta-feira em que todos adiantaram o serviço, menos ela, preferindo o silêncio, distanciou-se de um modo reflexivo e prejudicial. Tentou encontrar uma lanterna que possivelmente estava em uma das gavetas da escrivaninha. Naquele prédio de escritórios, ninguém mais, além dos faxineiros que chegariam dali a algumas horas. Nas gavetas vasculhadas às cegas, nada que parecesse uma lanterna, nada além de tropeços na escuridão, intercaladas pela claridade fortuita dos relâmpagos. Seu nome era Ariadne. Seu destino possível naquela noite era a morte.
Ele estava só, precisava se alimentar, a escuridão daquele black-out era o manto perfeito para se ocultar na sua busca. A tempestade fazia desabar naquele momento um frescor ao qual não estava acostumado, era estimulante para sua crescente fome. Seus sentidos sinalizavam o sucesso de sua caçada, caminhou pelas calçadas da vizinhança, seus olhos acostumados ao breu da noite tateavam os arredores desertos. Seus sentidos aguçados captavam todas as presenças, até encontrar o que lhe agradasse, farejava, escutava e observava. Passou frente a um prédio e escutou um barulho de coisas sendo derrubadas. Percebeu a presença de seu próximo alvo.
Ariadne derrubara uma seqüência de objetos de uma mesinha. Escutou um barulho logo adiante, parecia alguém se aproximando, esperava que fossem os faxineiros que finalmente chegavam, chamou apreensivamente, mas não obteve resposta, seu coração estava batendo forte. Poderia ser um bandido, pensou. Esta eletricidade que não volta! Tem alguém aí? Agora passos eram ouvidos. Sem resposta. Apoiando-se na parede do corredor, onde nem sequer os clarões ocasionais a alcançavam, tentava encontrar uma porta para trancar-se em segurança. Sente bem perto uma respiração pesada, que parecia aspirar o seu cheiro, e escutava o articular de um sorriso pelo hálito quente que lhe chegava às faces. A luz volta e os dois personagens vêem-se frente a frente, ele, ofuscado pela luminosidade repentina, protege os olhos, ela tenta escapar, ele se recupera e a alcança puxando-a pelo braço, jogando-a contra a parede e mordendo a jugular. Ela não grita, não dá tempo, é tudo muito rápido. As golfadas de sangue invadem a boca e aquecem a garganta dele enquanto o corpo em seus braços vai perdendo o equilíbrio e caindo, em conjunto, como dois amantes o vampiro e sua presa permanecem num êxtase de vida e morte.

O Anjo da Morte



Pálida, a figura a cavalo se ressalta na paisagem agreste da pequena cidade nordestina. Chamava atenção, fazia as pessoas tremerem com a visão quase mística se aproximar da igreja na praça central, empoeirada ao vento seco sob aquele sol de meio dia.
Havia poucos, mas o suficiente para chegar ao conhecimento de todos.
Um andaluz negro marchava calmo na rua principal, o cavaleiro anônimo detinha uma expressão impassível carregava um suspense e trazia ventos de medo, porque atrás de si arrastava uma turbulência no céu que escureceu o dia.
As pessoas da cidade que se aglomeravam pelos arredores, curiosos, ao perceberem a mudança repentina no tempo correram para suas casas, sendo que, apenas um homem permaneceu escondido, observando, intrigado, pois ele fazia parte de um grupo de bandoleiros. Naquela época, década de 20, fervilhava o cangaço na região.
O cavaleiro esperava a natureza concluir sua manifestação, de roupas negras, parado em frente à igreja. Virou seu olhar para a torre central, onde um crucifixo grande de ferro destacava contra o céu turbulento, enquanto a chuva desabava pesada e morna pelo clima anterior. Apeou e preparou-se, como se arrumasse para uma ocasião especial tirou seu chapéu que revelou longos cabelos de mulher, o homem que se achava despercebido aproximou-se mais para ver ainda de mais perto.
Embainhou uma arma na cintura, outra nas costas, calçou estranhas luvas que possuíam garras prateadas sobressaltando das pontas dos dedos, ponteiras. Tal cena causou em seu observador certo calor interior que culminava em tontura como uma intoxicação. Aquele ser encaminhou-se para a porta do templo e o abriu, adentrando devagar, no interior o padre, preocupado e em pânico implorava para que não profanasse o santuário. Ignorando as súplicas permanecia impassível olhando fixo para o altar, caminhou olhando em seguida com uma expressão tensa para a cruz, mas não para ela, mas uma inscrição em aramaico escrita na arcada sobre ela, eram palavras de evocação da presença das verdadeiras forças, (no início do cristianismo, muitas igrejas góticas eram construídas assim, com símbolos e recursos ocultos para que os pagãos pudessem venerar seus Deuses livres da perseguição) em silêncio e frente ao altar desembainha sua arma, depositando-a sobre ela. Logo atrás, no exterior a tormenta castigava a cidade, onde adentrava mais um expectador para aquela cerimônia estranha e sem natureza definida. Em seguida foi a vez da espada a qual ergueu em direção ao alto e assim, quebrando seu silêncio disse: “ Este instrumento de destruição, a serviço de sua verdadeira face, a face dúbia e não revelada restaura o equilíbrio entre os elementos”. Surgiam em sua lâmina reluzente à luz fraca das velas inscrições sendo forjadas enquanto desaparecia o contorno de sua pupila dos olhos tomando lugar uma cor estranha, atrás de seu corpo duas sombras negras como se fossem duas asas apareciam aos olhos do padre que murmurava, abaixando a cabeça.
O vento adentra no prédio e apaga todas as velas deixando a todos no interior à mercê dos clarões eventuais do temporal. Dentro da escuridão a mulher recolhe suas armas, vira-se e põe-se à retirada, indo para o exterior do prédio onde ainda desabava a chuva. Antes de sair, ainda às portas, vira seu olhar para o rosto do homem encurralado, tira a espada erguendo-a para atingi-lo. Dentro do barulho e dos clarões furtivos vindos lá de fora, o homem levanta devagar, numa demonstração de coragem, empunhando um facão. Num só golpe ela quebra a peixeira e se posiciona para executá-lo, quando pára, vira-se sutilmente como se alguém lhe sussurrasse aos ouvidos, volta, aproximando sua mão do rosto dele e, com a ponta da garra de sua luva fere a testa dele com um pequeno risco a sangrar imediatamente. Nesse momento, os seus olhos voltam a ter aparência humana e sua expressão se ameniza.
No outro canto da igreja o padre assistia a tudo, parecia compreender, pois diante de tanta desgraça naquela terra, somente uma intervenção sobrenatural para aquietar os ânimos, pensou, se a partir daquele dia tudo mudaria.
A figura misteriosa se retira, ao sair, as portas da igreja se fecham e ela desaparece, o som da chuva se acalma.
O padre se aproxima do homem que permanecia ao chão, em choque, observando o vazio, com seu rosto ensangüentado. Ele o ajuda a levantar-se e o recosta num dos bancos, puxando um pano para limpar o ferimento e perguntando o nome, repetidas vezes ao homem e ele responde: “Gabriel”, o padre suspira, dizendo apenas que o “anjo da morte” não o escolheu porque não era hora dele ir, o homem exclama: “Ela quebrou meu facão! Eu vi seus olhos”. Enquanto o padre limpa o ferimento murmura: “Meu Deus, que planos terá para nós?”.