sábado, 26 de janeiro de 2008

Fome

lEla estava só, precisava sair daquele prédio, mas a escuridão ocultava a saída. A tempestade tornou a vizinhança inteira mergulhada na noite mais profunda. Aquela sexta-feira em que todos adiantaram o serviço, menos ela, preferindo o silêncio, distanciou-se de um modo reflexivo e prejudicial. Tentou encontrar uma lanterna que possivelmente estava em uma das gavetas da escrivaninha. Naquele prédio de escritórios, ninguém mais, além dos faxineiros que chegariam dali a algumas horas. Nas gavetas vasculhadas às cegas, nada que parecesse uma lanterna, nada além de tropeços na escuridão, intercaladas pela claridade fortuita dos relâmpagos. Seu nome era Ariadne. Seu destino possível naquela noite era a morte.
Ele estava só, precisava se alimentar, a escuridão daquele black-out era o manto perfeito para se ocultar na sua busca. A tempestade fazia desabar naquele momento um frescor ao qual não estava acostumado, era estimulante para sua crescente fome. Seus sentidos sinalizavam o sucesso de sua caçada, caminhou pelas calçadas da vizinhança, seus olhos acostumados ao breu da noite tateavam os arredores desertos. Seus sentidos aguçados captavam todas as presenças, até encontrar o que lhe agradasse, farejava, escutava e observava. Passou frente a um prédio e escutou um barulho de coisas sendo derrubadas. Percebeu a presença de seu próximo alvo.
Ariadne derrubara uma seqüência de objetos de uma mesinha. Escutou um barulho logo adiante, parecia alguém se aproximando, esperava que fossem os faxineiros que finalmente chegavam, chamou apreensivamente, mas não obteve resposta, seu coração estava batendo forte. Poderia ser um bandido, pensou. Esta eletricidade que não volta! Tem alguém aí? Agora passos eram ouvidos. Sem resposta. Apoiando-se na parede do corredor, onde nem sequer os clarões ocasionais a alcançavam, tentava encontrar uma porta para trancar-se em segurança. Sente bem perto uma respiração pesada, que parecia aspirar o seu cheiro, e escutava o articular de um sorriso pelo hálito quente que lhe chegava às faces. A luz volta e os dois personagens vêem-se frente a frente, ele, ofuscado pela luminosidade repentina, protege os olhos, ela tenta escapar, ele se recupera e a alcança puxando-a pelo braço, jogando-a contra a parede e mordendo a jugular. Ela não grita, não dá tempo, é tudo muito rápido. As golfadas de sangue invadem a boca e aquecem a garganta dele enquanto o corpo em seus braços vai perdendo o equilíbrio e caindo, em conjunto, como dois amantes o vampiro e sua presa permanecem num êxtase de vida e morte.

O Anjo da Morte



Pálida, a figura a cavalo se ressalta na paisagem agreste da pequena cidade nordestina. Chamava atenção, fazia as pessoas tremerem com a visão quase mística se aproximar da igreja na praça central, empoeirada ao vento seco sob aquele sol de meio dia.
Havia poucos, mas o suficiente para chegar ao conhecimento de todos.
Um andaluz negro marchava calmo na rua principal, o cavaleiro anônimo detinha uma expressão impassível carregava um suspense e trazia ventos de medo, porque atrás de si arrastava uma turbulência no céu que escureceu o dia.
As pessoas da cidade que se aglomeravam pelos arredores, curiosos, ao perceberem a mudança repentina no tempo correram para suas casas, sendo que, apenas um homem permaneceu escondido, observando, intrigado, pois ele fazia parte de um grupo de bandoleiros. Naquela época, década de 20, fervilhava o cangaço na região.
O cavaleiro esperava a natureza concluir sua manifestação, de roupas negras, parado em frente à igreja. Virou seu olhar para a torre central, onde um crucifixo grande de ferro destacava contra o céu turbulento, enquanto a chuva desabava pesada e morna pelo clima anterior. Apeou e preparou-se, como se arrumasse para uma ocasião especial tirou seu chapéu que revelou longos cabelos de mulher, o homem que se achava despercebido aproximou-se mais para ver ainda de mais perto.
Embainhou uma arma na cintura, outra nas costas, calçou estranhas luvas que possuíam garras prateadas sobressaltando das pontas dos dedos, ponteiras. Tal cena causou em seu observador certo calor interior que culminava em tontura como uma intoxicação. Aquele ser encaminhou-se para a porta do templo e o abriu, adentrando devagar, no interior o padre, preocupado e em pânico implorava para que não profanasse o santuário. Ignorando as súplicas permanecia impassível olhando fixo para o altar, caminhou olhando em seguida com uma expressão tensa para a cruz, mas não para ela, mas uma inscrição em aramaico escrita na arcada sobre ela, eram palavras de evocação da presença das verdadeiras forças, (no início do cristianismo, muitas igrejas góticas eram construídas assim, com símbolos e recursos ocultos para que os pagãos pudessem venerar seus Deuses livres da perseguição) em silêncio e frente ao altar desembainha sua arma, depositando-a sobre ela. Logo atrás, no exterior a tormenta castigava a cidade, onde adentrava mais um expectador para aquela cerimônia estranha e sem natureza definida. Em seguida foi a vez da espada a qual ergueu em direção ao alto e assim, quebrando seu silêncio disse: “ Este instrumento de destruição, a serviço de sua verdadeira face, a face dúbia e não revelada restaura o equilíbrio entre os elementos”. Surgiam em sua lâmina reluzente à luz fraca das velas inscrições sendo forjadas enquanto desaparecia o contorno de sua pupila dos olhos tomando lugar uma cor estranha, atrás de seu corpo duas sombras negras como se fossem duas asas apareciam aos olhos do padre que murmurava, abaixando a cabeça.
O vento adentra no prédio e apaga todas as velas deixando a todos no interior à mercê dos clarões eventuais do temporal. Dentro da escuridão a mulher recolhe suas armas, vira-se e põe-se à retirada, indo para o exterior do prédio onde ainda desabava a chuva. Antes de sair, ainda às portas, vira seu olhar para o rosto do homem encurralado, tira a espada erguendo-a para atingi-lo. Dentro do barulho e dos clarões furtivos vindos lá de fora, o homem levanta devagar, numa demonstração de coragem, empunhando um facão. Num só golpe ela quebra a peixeira e se posiciona para executá-lo, quando pára, vira-se sutilmente como se alguém lhe sussurrasse aos ouvidos, volta, aproximando sua mão do rosto dele e, com a ponta da garra de sua luva fere a testa dele com um pequeno risco a sangrar imediatamente. Nesse momento, os seus olhos voltam a ter aparência humana e sua expressão se ameniza.
No outro canto da igreja o padre assistia a tudo, parecia compreender, pois diante de tanta desgraça naquela terra, somente uma intervenção sobrenatural para aquietar os ânimos, pensou, se a partir daquele dia tudo mudaria.
A figura misteriosa se retira, ao sair, as portas da igreja se fecham e ela desaparece, o som da chuva se acalma.
O padre se aproxima do homem que permanecia ao chão, em choque, observando o vazio, com seu rosto ensangüentado. Ele o ajuda a levantar-se e o recosta num dos bancos, puxando um pano para limpar o ferimento e perguntando o nome, repetidas vezes ao homem e ele responde: “Gabriel”, o padre suspira, dizendo apenas que o “anjo da morte” não o escolheu porque não era hora dele ir, o homem exclama: “Ela quebrou meu facão! Eu vi seus olhos”. Enquanto o padre limpa o ferimento murmura: “Meu Deus, que planos terá para nós?”.