domingo, 3 de fevereiro de 2008

Herança Eterna



8Sonia cavalgava pelo planalto descampado de grama verde que se estendia até o mar, sentia a brisa acre da maresia surgir sutilmente, era fresco e convidativo para permanecer no passeio por mais algumas horas., além de possuir um pôr-do-sol digno de uma dramática pintura barroca. Aqueles dias de descanso eram primordiais, pois estava se preparando para uma tarefa difícil.
A morte de seu tio lhe pesara de um modo exaustivo. Lembrava-se da carta do advogado que recebera naquela manhã: A leitura do testamento vai ser daqui a dois dias. E teria que viajar para Berlim no dia seguinte. Aqueles descampados do litoral Catarinense eram as únicas paisagens que conhecia. Sentia-se atormentada com a angústia e a ansiedade misturadas porque não compreendia a razão pela qual ele lhe incluíra como herdeira principal, sendo que os parentes mais próximos dele eram cidadãos alemães e estavam lá, mais perto dele e quase do outro lado do mundo, tão isolado. Pressentia sérios problemas no porvir.
Na casa da propriedade da família, chega uma telegrama com a seguinte mensagem: Chego esta noite, ass. Dr. Herman Slaüter. Era o curador e amigo de seu tio, sabia disso através de uma carta que recebera do tio um mês atrás, citando este homem e declarando total confiança nele. O empregado da fazenda colocou-a sobre a mesinha da entrada para quando Laura voltasse do passeio.
Algo lhe tocava naquela luz, enquanto parava seu cavalo frente à paisagem, observava o brilho furtivo do sol sobre as águas do mar, parecia torná-la sonolenta, dentro de um silêncio repentino, sentiu-se tonta, apeou, apoiou-se na sela e respirou fundo, mas sentia alguém se aproximar e lhe roubar as forças. Uma dor de cabeça que a fez sentar-se no chão e deitar sobre a grama.
O tempo passa e a noite chega, mas Laura não. Bem mais tarde aparece Hermam aos portões da propriedade, num carro alugado no aeroporto, foi atendido pelo empregado, que preocupado o coloca a par do desaparecimento de sua patroa, avisando também que outros funcionários do local já haviam partido em procura. Hermam era um homem de feições duras e com uma palidez típica do leste europeu, no momento corado, o lábio com um vermelho que não lhe parecia próprio, o mordomo observou temeroso, enquanto ele respondia às suas explicações com um meio sorriso, como se já soubesse que haveria demora. Foi conduzido até a sala de estar para aguardar, possuía uma exultação contida por sua frieza européia enquanto só, assentado numa cadeira passava os dedos pelos lábios para enxugar uma ínfima gota vermelha ancorada no canto, a suspirar prazerozamente.
Com seus olhos semi-serrados Laura olhava o céu avermelhado e sentia uma presença que não conseguia definir, uma sombra pousou sobre seu corpo, era o seu cavalo a pastar logo a diante. Ela sentiu algo tocá-la, mãos frias, mas seus movimentos estavam limitados em respirar pesadamente como se estivesse num sono profundo, mas inexplicavelmente estava consciente ao que se passava à volta. Alguém a erguia e lhe desnudava os ombros e em seguida uma ardência sucedida de um calor que se concentrava e refugava por longos minutos seguidos, enquanto sua percepção ia diminuindo lentamente e uma escuridão e silêncio a envolver completamente. Logo depois aquelas sensações a abandonaram, juntamente com o surgimento da luminosidade noturna de uma lua cheia que a cobria com a calidêz mórbida de uma morte desejada, e ela desejava mais, sentia, ansiava por morrer de novo. Desperta com um som ao longe, era o tropel de vários cavalos e vozes chamando o seu nome, tenta se mover, mas era difícil, sendo encontrada porque seu cavalo ainda estava por perto. Ela vê as lanternas se aproximarem e se concentrarem em seus olhos. “Dona Laura!” diz um dos homens. “A senhora está machucada? Consegue se mexer?” Ela apenas meneia a cabeça afirmativamente e se ergue devagar, ajudada por Jardel, o tratador dos cavalos, que busca a sua montaria e a ajuda a subir, partindo, junto dos outros que o acompanhavam em direção à sede da propriedade.
Hermam olha o relógio e ouve sons de muitos cavalos chegando, vê o empregado correr para a porta da frente abrindo-a nervosamente e lançando-se para o exterior fracamente iluminado. Jardel já havia descido do cavalo e a carregava nos braços pela porta adentro, chamando por Tatiana, uma das mulheres que já cuidava da casa há muitos anos e praticamente viu Laura crescer. O que era surpreendente para eles, era que a patroa nunca tinha sofrido acidente quando saía a cavalo. Ela foi imediatamente cuidar de Laura, que estava desacordada, o mordomo pega no telefone a fim de chamar o médico, mas Hermam intervém, dizendo que é médico e poderá ajudar. Os empregados se entreolham desconfiados, mas pela urgência da situação, concordam e pedem que chegue ao quarto.
O misterioso visitante, em tom austero, e com um sotaque germânico, pergunta se há indícios de contusão visíveis, enquanto tirava seu paletó e o colocava sobre uma cadeira juntamente com sua maleta. Aproxima-se, olhando para Laura com uma expressão ambiciosa, a toca no rosto e diz uma palavra em alemão que faz a herdeira abrir os olhos devagar. O pretenso médico diz à empregada que traga compressas de água fria, e a mulher se retira para buscar o material requisitado. Então, estando as sós com seu alvo, lhe diz ao ouvido: “Eu trouxe o seu legado.”