terça-feira, 8 de abril de 2008

A Estrangeira



Avalon, naquela noite sentiu um ímpeto de caçar, uma fome incomum invadia seu corpo, um instinto para matar mais intenso do que nas outras noites. Encontrou-se com outros predadores e lançou-se às ruas onde se aprofundava cada vez mais a escuridão.
Laura e sua missão, levar os cavalos para a propriedade de La Fountaine, nos arredores da cidade de Callais, na França. A época era séc. XIX. Ela possuía um criatório que desenvolvia raças de cavalos com pelagem exótica na América, estava na fase final de desenvolver uma raça derivada do quarto de milha e appaloosa, ela chamava de paint horse, era veterinária e se empenhava muito em seu trabalho. Era uma das poucas mulheres, na época a ter uma formação acadêmica superior, conquistada apenas por homens. Por ser filha única e herdeira dos negócios de seu pai, era obrigada a ter um olhar crítico e agressivo, estava prestes a se tornar noiva do filho de um outro fazendeiro próspero, uma união planejada pela família que ela repudiava, por isso abraçou esse compromisso. Recebeu uma proposta de apoio ao seu projeto de pesquisa em troca de levar alguns exemplares para a propriedade de um investidor chamado Dagbert Saintclair interessado na beleza dos animais.
Seu navio tinha atracado no final da tarde e o desembarque dos animais era lento e complicado. Estava exausta com os afazeres na noite anterior ao atravessarem um temporal em alto mar, enquanto se aproximavam do canal da mancha, custando-lhe uma noite inteira sem dormir, a tratar dos cavalos, porém esforçava-se em comandar a transferência do lote precioso para o chateau que havia alugado para se instalar com acomodações apropriadas. Mesmo assim ainda necessitava levá-los daquele lugar, pois não tinha arranjo para as dez cabeças que conduzia. Vestiu seu traje de viagem, a roupa de montaria conservando as características da região e país onde habitava.
Encilhou seu cavalo e com dois auxiliares eventuais que contratou ali no cais começou a conduzi-los pelas ruas crescentemente vazias da cidade, pois a noite estava avançando e o clima noturno dominante.
Quando passava pela rua principal do centro da cidade um dos ajudantes distraiu-se e deixou um desgarrado afugentar-se pelas vielas escuras. Ela ordena que ele fique junto da tropa à espera enquanto partiu ao encalço rapidamente. Vinte minutos depois retornou puxando o animal fugitivo. No mesmo momento em que chegava junto ao agrupamento Avalon passava por perto observando curioso, a princípio a conformação diferenciada dos cavalos. Surpreende-se com a visão enigmática daquela mulher de ímpetos imperativos, porém de uma aparência frágil que não combinava com suas atitudes, diante do subalterno que era repreendido duramente. Em conseqüência o homem reage com violência, tentando roubar um dos cavalos. E, procurando impedi-lo, Laura é derrubada da montaria caindo sobre umas madeiras amontoadas ali perto, provocando uns ferimentos no ombro. Mas ela levanta-se rápida e voltando à sela parte ao encalço do ladrão, enquanto o outro ajudante segurava o restante dos animais, bastante confuso com a perturbação, acalmando a pequena manada. Avalon acompanha o fato com interesse irremediável no vigor da amazona e a visão e o cheiro do ferimento que avermelhou sua blusa branca, avivando seus impulsos predatórios, e a energia que demonstrava em resistir corajosamente àquela situação. Ele pede para que os outros caçadores noturnos acerquem-se do local para que pudessem subjugá-la com mais precisão, visto a rapidez de reação que esboçava sua presa já escolhida.
Ela cavalga rapidamente em perseguição, mas ele desaparece na escuridão que se aprofunda com a madrugada aproximando-se. Diminuiu a marcha do animal, arquejou sobre a sela para tomar fôlego e também por causa da dor no ombro ferido, parou por uns instantes, nisso, ouve dentro do silêncio alguns sons que a desperta, e voltar-se para sua obrigação, voltando pelo mesmo caminho.
Ela não queria arriscar perder o restante dos animais, voltou para o ajudante que a esperava atento aos outros cavalos. Parecia mais honesto. Vendo-a voltar ainda mais abatida, o rapaz apeia e aguarda instruções, Laura manda que retorne ao cavalo e continue devagar, pois o Chateau não era muito longe.
Era a oportunidade para Avalon investir contra sua presa. Aproximou-se oferecendo ajuda, e estendendo o chapéu que ela havia derrubado, não conseguia desviar seu olhar sedento do ferimento. Laura estava tão atordoada pelos problemas que lhe acometiam, logo aceitou apesar da percepção turva por essa névoa de acontecimentos seus sentidos avisavam certa atração. Ao receber a resposta de Laura, Avalon reconhece um sotaque estrangeiro, extremamente charmoso e diferenciado para os seus ouvidos, imaginava o aproveitamento do restante dos atributos que ainda não conhece na pessoa de Laura. Ela apeia e entrega-lhe as rédeas de seu cavalo, pegando uma corda para apanhar outro animal da manada. Sua atenção estava dispersa, ele sentia isso, aquela confusão nela o perturbava. Avalon vê as gotas de sangue salientes e cintilantes na sela, discretamente captura essas gotas com a ponta dos dedos e leva-os aos lábios. Ele monta e observa que Laura improvisara um cabresto com a corda e montava à pelo. Ele achava um pouco ilógico ela confiar assim nele depois de ter sido traída por outro estranho, pois parecia que ela sabia algo mais que lhe escapara da própria percepção.
Seguiram pelas ruas, conduzindo os cavalos, Avalon discretamente faz um gesto para os outros que o acompanhavam para que o deixasse. Ela ia numa lateral da manada e ele do outro, enquanto o auxiliar ia à frente. Ele a observava, notando que ela estava cada vez mais indefesa, como ele queria. Planejava, quando estivessem a sós fazer um ataque certeiro. Aos poucos e conforme iam se aproximando do destino, Laura ia ficando cada vez mais para trás.
Entraram no piquete do lugar de destino, que estava àquela altura deserto. Laura ainda vinha com o cavalo a passo até ele parar e ela se curvar sobre o dorso dele, o rapaz correu ao encontro dela e puxou para dentro do celeiro, a ajudou a descer. O ajudante recebeu pagamento das mãos de Avalon , declarou que cuidaria dela, e foi dispensado.
Sua manga e gola da roupa estavam encharcadas, isso lhe exauriu de uma vez as forças. Avalon estava preparado para arrebatá-la.
Segurou-a nos braços e a deitou sobre um palheiro. Abriu sua roupa revelando seus ombros nus e de um lado o vermelho atraente que brotava exuberante, clamava por seus lábios. Sugou o ferimento. Laura já estava inconsciente. Havia um silêncio angustioso quebrado pelo som dos animais. Ele leva eternos minutos saboreando bem devagar aquela energia que lhe vinha em porções generosas. Não deixaria desperdiçar aquele inquietante e esperado momento, por menor que fosse para ele era tão preciosa quanto sua própria vida. Resolveu não esgotá-la de uma vez, desejou fazer uma segunda investida, pois a energia absorvida naquela hora e naquelas condições era atraente de outras formas evidentes, seus olhos percorriam o corpo que oscilava numa respiração rápida, escutava o coração pulsar sua carótida sobressaltada pelo estresse. O seu êxtase debruçado sobre a volúpia inconsciente, instintiva, doce como o sabor em sua boca. Beijou-a. O cheiro de sangue em seu corpo se misturava ao feromônio, enquanto ele a tocava degustando cada gota, desejava , precisava de mais. Tira sua camisa e a rasga em tiras, limpa o ferimento e a enfaixa, a recosta no palheiro e a veste. Retira-se pesaroso, com o rubro do vindouro nascer do sol aquarelando os céus, com seu peito nu sob o casaco, olha para trás uma vez e desaparece.
Laura acorda na manhã seguinte, e percebe seu ferimento enfaixado e, parado à sua frente um homem perguntando quem era. Ela se identifica, em tom baixo, pois não conseguia sequer articular palavras precisas, nem se movimentar, faltava-lhe ar . O homem chama uma mulher, que era a empregada da casa principal e ordena que o ajude a levá-la para dentro do prédio, a carrega nos braços e manda que chame um médico.
No quarto, a mulher, que se apresentou como Salet preparou um banho. Laura perguntou sobre o homem que a ajudou, se ele voltaria, pois o rosto dele não saía da mente. Após ser examinada pelo médico e tratada com o que prescrevera recuperou-se depressa. Pensava em descobrir o nome daquele homem, porque naquela situação não havia nem perguntado. A mulher não sabia responder ou não queria, parecia perturbada por sua condição pouco comum para uma mulher, ser decidida e independente.
Permaneceu deitada até a noite, quando mais recomposta desceu ao andar de baixo. Perguntou ao homem, o caseiro que se chamava Anton, se sua bagagem já havia sido entregue. Ele afirma que sim mostrando o baú num canto. Ela pede que ele leve para o quarto, sendo atendida prontamente. Ela sobe logo em seguida e se veste com um traje mais social, um vestido comum.
É servido o jantar e logo em seguida ela sai até as cocheiras para examinar os animais quando escuta uma voz aveludada de um homem a pouca distancia dizendo que ela estava devendo uma camisa a ele. Ela abaixa a cabeça sorrindo, mas não se vira, dizendo polidamente: “A quem devo a honra?” Ele responde: “Avalon, lord Avalon”, ela se vira e troca um olhar doce, ele sentia, concluindo tão doce quanto o sangue, pensava. Ela continua, enquanto ele a cumprimenta beijando-lhe a mão: “Devo-lhe agradecer por sacrificar suas vestes por mim?” “Se mi lady sentir-se agradecida, não mais do que eu por conhecê-la agora de um modo totalmente surpreendente.” “Está decepcionado pela falta de agressividade, ou pelo excesso de delicadeza?” “São dois lados opostos que conheci seguidamente, talvez seja por isso.”
Caminharam juntos ao longo das cocheiras, enquanto conversava ela ia examinando animal por animal. Ele fez uma observação: “Você é dedicada no que faz.” “Faz parte de meu trabalho, sou veterinária e esses animais estão sob minha responsabilidade.” “E sobre aquele que foi roubado.” “Com certeza sairá do meu pagamento. Que desperdício, deveria ter trazido minha equipe, mas a minha auto-suficiência me condenou.” “Hora, veja por este ângulo, se os trouxesse, eu não estaria aqui.” Ela desmancha o ar preocupado e declara: “Você tem o poder de convencer qualquer um.” Ele se coloca sério por ela sentir seu poder dominante sobre a vontade humana. “Como concluiu isso?” Ela já examinava o último animal. Não respondeu de imediato, suspirou e foi até uma tina para lavar suas mãos e antebraços. “Bem, digamos que nossos sentimentos são como essas gotas de água que estão em minhas mãos, elas se formam e passeiam pela pele, você as sente.” Molha a mão dele. “Agora você sente o mesmo que eu.” Isso serviu como mensagem para ele que inconscientemente ela sabia que ele a havia drenado. “Você é muito enigmática.” Falou com um sorriso discreto nos lábios. “Lorde Avalon também é um homem misterioso. O que deseja?” Uma pergunta que lhe causou um impulso para atacá-la novamente, mas deteve-se, sabendo que havia mais pessoas na casa. “Vim convidá-la para um jantar, mas vejo que está ocupada.” “Não seja por isso, uma taça de vinho, talvez, gostaria de conhecer a cidade”. “Amanhã à noite?” “Sim, estarei esperando ansiosa.” Ela esboça uma expressão de contentamento captada pelo brilho no olhar, que ele capturava avidamente como se quisesse detê-lo só para si. Estaria ele atraído sexualmente ou fascinado pelo alimento tão exótico, descobriria na próxima noite.
Durante o dia todo Laura não conseguia tirar aqueles olhos de sua mente, que pareciam despi-la, porém pensava preocupada sobre o que ele tinha feito com ela enquanto estava inconsciente, estremecia ao imaginar, procuraria tirar essa informação durante o jantar na cidade àquela noite.
Ela já estava arrumada, olhava-se no espelho grande do quarto, mas não se contentava com aqueles trajes pesados, ao qual não fazia parte o seu modo de viver atual. Mas ela estava elegante e discreta o suficiente para andar pelas ruas sem chamar a atenção, ela queria estar no lugar de observadora, não de observada.
Ele chega com uma carruagem a qual encosta na frente da casa, ela embarca. Ele a cumprimenta e a elogia, pergunta se já se sente melhor. Ela sorri discretamente. “Preocupado?” Ela ajeita o xale, fechando-o mais sobre o ombro. Sentia o olhar percorrer o decote que aparecia na fresta do tecido delicado. Ele percebe o gesto de desaprovação dela e comenta: “Vou levá-la num belo lugar, charmoso e discreto.” Ela devolve outro olhar de desaprovação, fazendo-o intrigar-se. “Eu gostaria de saber quais suas intenções”. “Estou acompanhando-o simplesmente por ajudar-me naquele momento difícil...”
Antes que terminasse ele a interrompe: “Medo?” Ela se embaraça e cora, desviando o olhar para o movimento de pessoas na rua. Ele tenta quebrar o gelo e se aproximar do mesmo modo que a envolveu na noite anterior. Avalon muda de lugar sentando-se ao lado dela quando antes de frente na carruagem com quatro lugares.
Olham-se enquanto o magnetismo os remete um contra o outro num beijo sensual, ele enlaça a cintura de Laura puxando-a contra o seu corpo sentindo o coração acelerado, o calor. Por onde passavam era um acesso arborizado para a casa dele. Depois do beijo ela pergunta: “O que você quer de mim?” Ele destampa o seu anel que continha um lancete e a espeta no pescoço, ela desmaia em segundos. Depois ele responde: “Eu quero você.”

4 comentários:

Hadenes disse...

belo conto...gostei...

H.:

Inominável Ser disse...

Uma decisiva forma de encantos com o sangue e seus Mistérios, Conhecida...

Adriano Siqueira disse...

é fascinante o seu blog e sua escrita.. claro que vou colocar nos favoritos para ler tudo e comentar.

tenha uma adorável noite
adriano siqueira
www.contosdevampiroseterror.blogspot.com

Luciana disse...

Agradeço aos comentários, estou a aprimorar e o estímulo é bem vindo... bjs...