segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Véu da Vampira

Eles eram impiedosos. Carregavam imagens de morte para dentro da mente das pessoas, e isso era normal. Normal em todas as épocas e ainda alimentavam-se dos impulsos destrutivos dos humanos.
Humanos. Eles vagavam pelas terras abrindo o caminho para ela passar, aquela que todos os seres temiam, de todos os planos existentes, carregava no olhar o vórtice das almas, seus filhos, projetariam a construção de toda a perfeição como condutores da grande massa. Despertava, desvelava, alimentava docemente com sua existência o equilíbrio de tudo que tocava. Ela mesma não conhecia seu verdadeiro potencial, era mais uma na multidão, mas, alguns dos muitos que viam o reflexo desse farol a buscavam para deter a consciência de si, mas ainda não a alcançaram plena como deveria para que tudo fosse realizado, o que temiam.
Ela estava sentada á penteadeira, observando seu próprio reflexo, não conseguia reconhecê-lo, mas era seu próprio rosto que estava ali, o mesmo que estava naquele retrato antigo, sobre o móvel agora empoeirado pelo abandono. Lucilia, de olhos marejados, insistentes por uma emoção que não tinha mais no peito, não destilava lágrimas, não mais. Era algo mai metálico e desconfortável, que forçosamente não refletia mais, agora sim... Fosse ela agora a ocupar aquela voz que repetia sempre o mesmo nome, e o pensamento que encarcerou eternamente o mesmo rosto, não são mais qualidades de uma vida. O tempo leva tudo, não leva, porém a sinceridade contida na alma... Precisava partir naquele instante, o seu dever a esperava, cumprir alimentar o que por imperícia a devorasse por completo, o que lhe restasse de si, mas o que lhe importava? Ainda se esforçava por lembrar o que ainda a impulsionava, se não lhe restava nada, ou desconhecia o que sentia, não tinha nome, não naquele instante, naquele dia realizaria, então revelaria, enfim, seu destino e tornaria as rédeas ás mãos ao invés do abismo... Não queria fazer comparações com coisas cotidianas da vida, não seria e também parecia, um sopro num castelo de cartas, analogismo perturbador que traduz na praticidade a fragilidade de algo que deveria ser forte, e não é.... Seria abandonar e ao mesmo tempo a presença constante, depender, acorrentada, e ainda ter amplas asas, então sentir e estar sem significado ou direção, em sua reflexão esmaga os próprios conflitos, respira a última lembrança em vida: “Como quiser!” Ela caminhou até a rua vazia, de uma madrugada quente, neste lugar tão familiar, tão inserido em seu passado. E neste mundo análogo ao seu agora, observa as pessoas ilhadas nos seus egos e a construírem suas vidas ilusórias, idealizadas através do que apenas palpável e material. Como é belo o esquecimento, maldita consciência...! “Desculpe Lucília, mas não preciso mais de você, venho para desfazer este engano, de que há certo grau de amor, que não deveria estar acontecendo, porque não pertence mais a este mundo feito de matéria, mas a um passado, como reminiscências de algo que acabou junto com a vida que tinha no passado. O desprendimento está fora do lugar, projeta isso para o agora com relação aos verdadeiros significados, são apenas sensações que se vão conforme os fatos incidem e o que permanece é o que está em si, que continua, não devia prender-se assim a mim... diga adeus ... não era isso que você queria?”... Esta voz não lhe saía da lembrança, mas eram ecos que permaneciam naquele lugar, e não faziam mais parte de sua realidade, agora em sua existência havia a inércia definitiva ao tempo...
Olhou pela janela e viu que era o momento de partir, nestes lapsos onde imergia na busca de algo que restou de sua vida humana. Na rua, lhe esperavam para mais uma noite de caça, como pensava que fosse aquela vez, a sustentar seus instintos, de certa forma, pela compreensão distorcida de um deleite crescente e devastador dentro de si...
Na calçada seus passos eram os únicos que ouvia, no silêncio de uma noite de lua cheia, seu lado negro ainda exposto, contrastava a claridade envolvente, seus olhos perfuravam o negrume das ruelas estreitas que serpenteavam pela rua principal, a única iluminada pelos postes de lâmpadas amarelas que pareciam fazer brotar do chão o que restasse de seus conviveres costumeiros das noites de solitária caminhada. Na próxima esquina seu destino, recostado na parede do prédio parecia distraído, ela aproximou-se enquanto ele, imóvel absorvia a brisa fresca, um cheiro úmido de uma chuva eminente se fazia, e o som dos passos de Lucília, fez mudar a postura e recebê-la apenas com um olhar de desaprovação pela demora.
- Distraiu-se hoje?
- Como sempre caríssimo, minhas reflexões e lapsos...
- Não se canse. - enlaçando sua cintura e acariciando o rosto dela com o polegar - ainda tens muito a fazer, acompanhe-me.
Saíram a passos mais rápidos, Chronos tinha planos mais ousados naquela noite, Lucília previa situações de onde não retornaria o que explicaria sua imersão em seu passado, de modo tão repentino, talvez, presumia uma despedida do que restou de sua passagem pela terra... Enquanto do outro lado da cidade, o seu alvo agia...
Duas pessoas corriam pelas ruas desertas, naquela noite e após uma chuva que transformou o pôr-do-sol em uma noite súbita e profunda, o chão brilhava sob as luzes noturnas, e refletia os passos apressados e largos daquele homem, acompanhado de outro que lhe alcançava rapidamente, não diziam nada um ao outro, o silêncio de suas vozes era quebrado pelo som de seus passos. Pararam, em frente a uma casa de arquitetura colonial do século XVII, olham para o céu onde as nuvens enfim revelam a brilhante lua cheia, um deles recebe aquela presença lunar com um arfar em sua respiração declinando a cabeça para trás levemente, cerra os olhos, fareja e escuta as presenças do interior daquela morada, onde uma das janelas do piso superior revela uma luz fraca. O aroma era de rosas, estas que se revelavam através das cortinas translúcidas, sobre uma mesinha próxima no interior de um quarto. Uma sombra transita contra esta luz. Os dois homens se entreolham e um deles empalidece, mas com um gesto de consentimento vira-se a observar, vigiando os arredores, o outro avança contra a janela, levado pelo aroma, não mais das rosas, mas do corpo feminino que provocava aquela sombra. Logo a encontra, não havia como discriminar qual força o atraía mais, a fome ou a sensualidade, que poderia provar dos dois como uma suave ambrosia, sobre a pele tão alva, doces e rubros momentos, lamentava-se por ser demasiado breve a degustação de cada perfumado néctar, de vida e deleite sublimado como se o traspassar de cada presa sacramentasse sua existência sobre a terra. Não era preciso justificar, nem ser totalmente consciente, apenas cumprir sua função.
Um som do lado de fora do prédio aguça seus sentidos, fazendo-o abandonar o frágil corpo com ainda algumas gotas de vida, olha para trás com certo ar de ternura. Ainda aqueles olhos vidrados de pupilas dilatadas observando o vazio que agora o preenche e pulsa em suas veias, suspira como se lamentasse, não por sua presa, mas pelos breves momentos, desejados tão ardentemente que fossem permanentes. Em segundos estava entre as luzes e frescor da rua, renovado de sua urgência, mas não via seu companheiro, ele procura alarmado por traços da presença e, nenhuma, sequer insinuação de movimento. Olha novamente para a lua, sendo encoberta pelas pesadas nuvens, prenunciando outra chuva. ...
Lucília iria, enfim, encontrar aquele que habitava seus ressentimentos, e suas lembranças...começa a chover, uma garoa tímida, mas constante, perfumada dos ares dos jardins florescidos daquela primavera, tudo se acalma rapidamente, o frescor aviva os sentidos ainda mais.
Chronos, que havia se adiantado, reaparece com um vampiro desacordado nos braços, Lucília olha em seu rosto, o reconhece, é um dos vassalos de Círius, aquele que a trouxe e também a levará.
- Ele virá logo, fique preparada querida.
Círius percebeu logo a aproximação de seus opositores, e foi imediatamente ao encontro.
Ao defrontar-se com Lucília ouviu o que planejava ouvir, como previu.
- Eu não temo meu destino. Disse Lucília com atitudes de esperar uma investida, ou um ataque violento.
Círios sorriu suas presas ainda manchadas com o sangue de sua vítima recente, olhando para Chronos, como se os dois combinassem. Ao invés disso falou:
- É a lua certa.
Em seguida recomeça a chuva, os seres impassíveis permanecem indiferentes a tudo que não seja seus objetivos, Lucília percebe sem mesmo haver palavras ou gestos que caíra em uma armadilha, mas uma tentativa vâ de deter o que a espera, o que está nela. Seu antigo mestre queria punição para sua vassala rebelde, Chronos, um traidor.
- Não pode ser, é impossível submetê-la! - Não era mais a Lucília que ele havia abandonado a própria sorte, mesmo junto de Chronos e Círius, eles eram incapazes de detê-la.
Sim, com certeza era a lua certa, o ano novo da era vampirica começou.
A chuva não parava, apenas alterava sua composição, chovia, sobre eles chovia sangue.
Lucília, detia sua consciência plena,diz:
- Feliz ano Novo.

domingo, 20 de junho de 2010

Eclipse

Um céu onde a luz fugia aos olhares atentos, refletia no medo dos aldeões o abalo do pânico crescente...
- É o fim do mundo... Vamos todos morrer...! (dizia um velho desdentado, de rosto enrugado pela vida difícil daqueles tempos)
Uma criança chorava em meio ao silêncio mórbido que se transformava em murmúrios e lamentos à medida que o dia se transformava em noite.
- Estamos sendo punidos pelos Deuses. Nos esquecemos deles, e estão se vingando! (clamava uma mulher entre lágrimas)
Ao mesmo tempo em que esta comoção ocorria, caminhava a passos lentos um homem puxando um cavalo, calmamente e com um meio sorriso, observava a ignorância dos víveres daquela terra, ele era um mouro, detinha o conhecimento sobre astronomia que os povos da península ibérica, ele sabia se tentasse explicar o assunto seria levado à religiosidade, como tudo que não é compreendido é temido, e o que é temido pode certamente ser destruído. Com essa consicência resolveu calar-se e observar.
As pessoas, comovidas por aquela intrusão da natureza na rotina de suas vidas nem perceberam a presença do visitante estrangeiro. Elas se retiravam nervosamente e se dispersavam cada qual em busca de seu abrigo e suas rezas.A escuridão aumentava e a vereda única do lugarejo tornava-se também inóspito como o céu de luz, o mouro queria apreciar o fenômeno, naquele dia contra um céu sem núvens. Mas não percebeu que mais alguém também ficara por perto, a observar no mesmo intuito que ele.
O homem percebeu um movimento nas sombras, um tímido som de passos em meio murmúrios abafados vindos das casas. Ele se adianta e interpela puxando pelo braço a jovem de cabelos vermelhos de olhar severo.
- Me solte, estranho...!! Como ousa ....?
- Mulher! Não tem medo como os outros? Que tipo de pessoa estás a demonstrar? Saiba que isso lhe é perigoso?
- Ha, ha... Não temo nada que seja incompreensível, nem mesmo a ti...
- Então explique, eu quero saber.... (ainda a apertar o braço frágil, que débilmente tentava se desvencilhar daquelas mãos fortes que pesadamente a mantinha sob o crivo de suas perguntas)
- Queres mesmo saber? Aquele fenômeno no céu eu sabia que aconteceria.... é por minha causa... apenas minha....
- Então diga-me o que aconteceu..
Ariadne volta o olhar para o eclipse como se esperasse um sinal de concordância para a revelação que fará... nesse momento encontram os olhos de seu interlocutor que a solta de imediato.- Aquela mulher quase acertou, quase.Aquela reflexão vem à tona como se trouxesse um acréscimo à curiosidade do viajante, que instigado questiona para que continue.Então ela abaixa a cabeça e sorri sem que ele veja seu esboçar de alguma emoção e recorda:
-Anistad, meu pai, infelizmente.... próspero fazendeiro....
Lá está ele, nas lembranças narradas e revividas....os passos solitários ecoavam pelos corredores escuros daquele porão úmido. A adega estava parcialmente alagada por causa daqueles dias seguidos de chuva torrencial. Não parava, não existia mais nada que escapasse seco daquele ambiente que dominava toda a região. Os dilúvios das monções de outubro estavam implacáveis aquele ano. Anistad observava o nível da água que subia, todos os seus pertences e provisões ali estocadas estavam perdidas.Dirigiu-se para o pátio da casa principal da fazenda de onde visualizava os campos com vastos vinhedos, vagarosamente sucumbindo ao desastre do tempo sem que ele pudesse fazer nada para impedir. Seu olhar irado contra as nuvens pesadas que acumulavam impiedosas, a sinalizarem com seus relâmpagos o descaso para com a desgraça daquele mortal.
- Riam, deuses perversos! – praguejava o agricultor tomado pela insanidade de sua impotência frente à ação calamitosa da natureza, com seus punhos cerrados perante os céus. Seus olhos semicerrados frente a chuva, que pareciam escaldar seu rosto contraído pela dor.Não tinha outra escolha, senão esperar. Virou-se, sem se importar mais com o que acontecia a sua volta, caminhou pesaroso para o interior da casa.
Não imaginava que aquela noite seria diferente e mudaria o seu destino.Ele estava só na casa, pois sua família havia se mudado para a região mais alta. O que lhe acompanhava eram os sons intermináveis e enlouquecedores da chuva infindável, um asilo, talvez formadora de alucinações.Naquela noite a chuva diminuiu, acalentando os sentidos de Anistad, por isso, achegou-se à varanda deformada da casa alquebrada pela falta de cuidados.
Avistou em meio os clarões furtivos da noite escura uma figura se aproximar a cavalo.Um homem pedia pouso para descanso. Ele não via o rosto, mas ávido por companhia, ter a quem se lamentar de sua desgraça além dos deuses era um alento. Convidou-o, era a assinatura para um começo mais tormentoso do que imaginaria em toda a sua vida.A figura vestida de capa e chapéu se aproximou enquanto Anistad tentava visualizar o rosto de seu convidado. Era um homem alto, magro, pálido, de feições suaves, parecia um estrangeiro, tinha um sotaque questionável de sua origem ao agradecer a acolhida. Adentraram a sala principal, ampla da construção colonial, onde o passo sobre a madeira contorcida pela umidade excessiva era quase inaudível. Sentaram-se às cadeiras e foi oferecida uma bebida.
O fogo da lareira trazia um ambiente barroco ao recinto.
- Qual é o nome de meu convidado? – perguntava polido, mas com um olhar desconfiado.O homem ergueu o olhar após um grande gole à taça de vinho, portando um sorriso empedrado pela sua impassividade, respondia dentro do prazer em sua degustação.
- Zarrel. Ótimo vinho, senhor....?
- Anistad. Aprecie o último de uma safra perdida.... – suspira olhando para a janela que cintilava frente ao campo de videiras. Levanta-se e observa.
O homem olha para mesma direção e elogia:
- Sua plantação é de invejável produção, onde estão os outros?
- Decadência. Invejável? Solitude de uma queda desta altura!O homem esboçou um sorriso e se aproximou de Anistad.
- Desejas a morte?
- O que mais me resta perante tanta desgraça?
- És um homem próspero, o que acreditas que possa ter lhe causado tantos castigos dos deuses?- Desprezei-os quando minha vida estava em ascensão, agora praguejo contra eles na decadência. O que esperaria um ser que se condenou frente a sua falta de honra?De cabeça baixa frente ao vidro da janela refletia o retrato de um vencido.
O homem que o visitava na verdade era um demônio enviado pelos deuses para abatê-lo da forma mais terrível. Agora, mais nada o impedia, ali, desatento, enfraquecido espiritualmente, restava punir sua carne para abrandar a ira divina.Zarrel ergueu-se, seu porte parecia mais alto que antes, seu rosto se desfigurou, de suas mãos saíam garras luminosas as quais na fraca luz pareciam uma coleção de facas afiadas. Os deuses tinham lhe dado Anistad para saciar sua sede de sangue.Traidores de sua benevolência eram punidos severamente pelo destino.
Quando Tífon ia desferir o seu golpe inicial adentra pela porta uma figura que o faz retrair instantaneamente para sua forma humana.Anistad vira-se assustado para o homem e depois para quem entrava, aguçou sua visão e notou que era sua filha, Ariadne, que correu em sua direção e, ao vê-lo ainda bem voltou-se para o estranho e esbravejou.
- Vieste buscá-lo, eu sei, mas enfrentarás antes a mim.O homem abaixa a cabeça e solta um riso alto contorcido pela sua mutação evidente.
- Bruxa, seus esforços não impedirão que minha missão seja cumprida. Por sua insolência levarei sua alma escravizada a mim.O mortal sem honra foi abatido rapidamente sob o olhar de terror da própria filha. Depois ele se vira toma a mulher em seus braços e desfaz sua forma para a humana, atira a cabeça para trás como se fosse alvejado por alguma arma e a solta atirando-a para um canto do recinto, sobre uma cadeira que se quebra sob o peso da queda.- Seu guardião será destruído!Surge entre ele e Ariadne a figura de um elemental de dimensões consideráveis à força que reunia num esforço ínfimo para sua sobrevivência, materializado através de seu pensamento dirigido para a vingança e o terror de ver seu próprio pai estraçalhado por aquele demônio. Então, duas feras se batem num duelo que por ventura daria o tempo para ela se recuperar da agressão e fugir. Ergueu-se titubeante, mas quando dirigia seus débeis passos para a porta da frente parou e virou-se, enquanto seu guardião sucumbia perante a força de Zarrel. Entendeu que não haveria fuga, nem lugar que a protegesse, resolveu ficar. Esperou até que tudo acabasse, e o ser elemental se desfizesse e o vencedor, ainda mais irado voltasse contra ela, que esperava impassível, sem medo.No momento em que se dirigia para atacá-la, observou a mudança, parou hesitante com suas garras a centímetros da garganta alva. Mas ele permanecia ainda em guarda, pois sabia que aquela aparência frágil guardava um poder, que ele reconheceu ali, combatendo aquele guardião. Ele desejou esse poder para ele, ela percebeu pelo olhar cobiçoso o que ele pretendia.
continua....