domingo, 20 de junho de 2010

Eclipse

Um céu onde a luz fugia aos olhares atentos, refletia no medo dos aldeões o abalo do pânico crescente...
- É o fim do mundo... Vamos todos morrer...! (dizia um velho desdentado, de rosto enrugado pela vida difícil daqueles tempos)
Uma criança chorava em meio ao silêncio mórbido que se transformava em murmúrios e lamentos à medida que o dia se transformava em noite.
- Estamos sendo punidos pelos Deuses. Nos esquecemos deles, e estão se vingando! (clamava uma mulher entre lágrimas)
Ao mesmo tempo em que esta comoção ocorria, caminhava a passos lentos um homem puxando um cavalo, calmamente e com um meio sorriso, observava a ignorância dos víveres daquela terra, ele era um mouro, detinha o conhecimento sobre astronomia que os povos da península ibérica, ele sabia se tentasse explicar o assunto seria levado à religiosidade, como tudo que não é compreendido é temido, e o que é temido pode certamente ser destruído. Com essa consicência resolveu calar-se e observar.
As pessoas, comovidas por aquela intrusão da natureza na rotina de suas vidas nem perceberam a presença do visitante estrangeiro. Elas se retiravam nervosamente e se dispersavam cada qual em busca de seu abrigo e suas rezas.A escuridão aumentava e a vereda única do lugarejo tornava-se também inóspito como o céu de luz, o mouro queria apreciar o fenômeno, naquele dia contra um céu sem núvens. Mas não percebeu que mais alguém também ficara por perto, a observar no mesmo intuito que ele.
O homem percebeu um movimento nas sombras, um tímido som de passos em meio murmúrios abafados vindos das casas. Ele se adianta e interpela puxando pelo braço a jovem de cabelos vermelhos de olhar severo.
- Me solte, estranho...!! Como ousa ....?
- Mulher! Não tem medo como os outros? Que tipo de pessoa estás a demonstrar? Saiba que isso lhe é perigoso?
- Ha, ha... Não temo nada que seja incompreensível, nem mesmo a ti...
- Então explique, eu quero saber.... (ainda a apertar o braço frágil, que débilmente tentava se desvencilhar daquelas mãos fortes que pesadamente a mantinha sob o crivo de suas perguntas)
- Queres mesmo saber? Aquele fenômeno no céu eu sabia que aconteceria.... é por minha causa... apenas minha....
- Então diga-me o que aconteceu..
Ariadne volta o olhar para o eclipse como se esperasse um sinal de concordância para a revelação que fará... nesse momento encontram os olhos de seu interlocutor que a solta de imediato.- Aquela mulher quase acertou, quase.Aquela reflexão vem à tona como se trouxesse um acréscimo à curiosidade do viajante, que instigado questiona para que continue.Então ela abaixa a cabeça e sorri sem que ele veja seu esboçar de alguma emoção e recorda:
-Anistad, meu pai, infelizmente.... próspero fazendeiro....
Lá está ele, nas lembranças narradas e revividas....os passos solitários ecoavam pelos corredores escuros daquele porão úmido. A adega estava parcialmente alagada por causa daqueles dias seguidos de chuva torrencial. Não parava, não existia mais nada que escapasse seco daquele ambiente que dominava toda a região. Os dilúvios das monções de outubro estavam implacáveis aquele ano. Anistad observava o nível da água que subia, todos os seus pertences e provisões ali estocadas estavam perdidas.Dirigiu-se para o pátio da casa principal da fazenda de onde visualizava os campos com vastos vinhedos, vagarosamente sucumbindo ao desastre do tempo sem que ele pudesse fazer nada para impedir. Seu olhar irado contra as nuvens pesadas que acumulavam impiedosas, a sinalizarem com seus relâmpagos o descaso para com a desgraça daquele mortal.
- Riam, deuses perversos! – praguejava o agricultor tomado pela insanidade de sua impotência frente à ação calamitosa da natureza, com seus punhos cerrados perante os céus. Seus olhos semicerrados frente a chuva, que pareciam escaldar seu rosto contraído pela dor.Não tinha outra escolha, senão esperar. Virou-se, sem se importar mais com o que acontecia a sua volta, caminhou pesaroso para o interior da casa.
Não imaginava que aquela noite seria diferente e mudaria o seu destino.Ele estava só na casa, pois sua família havia se mudado para a região mais alta. O que lhe acompanhava eram os sons intermináveis e enlouquecedores da chuva infindável, um asilo, talvez formadora de alucinações.Naquela noite a chuva diminuiu, acalentando os sentidos de Anistad, por isso, achegou-se à varanda deformada da casa alquebrada pela falta de cuidados.
Avistou em meio os clarões furtivos da noite escura uma figura se aproximar a cavalo.Um homem pedia pouso para descanso. Ele não via o rosto, mas ávido por companhia, ter a quem se lamentar de sua desgraça além dos deuses era um alento. Convidou-o, era a assinatura para um começo mais tormentoso do que imaginaria em toda a sua vida.A figura vestida de capa e chapéu se aproximou enquanto Anistad tentava visualizar o rosto de seu convidado. Era um homem alto, magro, pálido, de feições suaves, parecia um estrangeiro, tinha um sotaque questionável de sua origem ao agradecer a acolhida. Adentraram a sala principal, ampla da construção colonial, onde o passo sobre a madeira contorcida pela umidade excessiva era quase inaudível. Sentaram-se às cadeiras e foi oferecida uma bebida.
O fogo da lareira trazia um ambiente barroco ao recinto.
- Qual é o nome de meu convidado? – perguntava polido, mas com um olhar desconfiado.O homem ergueu o olhar após um grande gole à taça de vinho, portando um sorriso empedrado pela sua impassividade, respondia dentro do prazer em sua degustação.
- Zarrel. Ótimo vinho, senhor....?
- Anistad. Aprecie o último de uma safra perdida.... – suspira olhando para a janela que cintilava frente ao campo de videiras. Levanta-se e observa.
O homem olha para mesma direção e elogia:
- Sua plantação é de invejável produção, onde estão os outros?
- Decadência. Invejável? Solitude de uma queda desta altura!O homem esboçou um sorriso e se aproximou de Anistad.
- Desejas a morte?
- O que mais me resta perante tanta desgraça?
- És um homem próspero, o que acreditas que possa ter lhe causado tantos castigos dos deuses?- Desprezei-os quando minha vida estava em ascensão, agora praguejo contra eles na decadência. O que esperaria um ser que se condenou frente a sua falta de honra?De cabeça baixa frente ao vidro da janela refletia o retrato de um vencido.
O homem que o visitava na verdade era um demônio enviado pelos deuses para abatê-lo da forma mais terrível. Agora, mais nada o impedia, ali, desatento, enfraquecido espiritualmente, restava punir sua carne para abrandar a ira divina.Zarrel ergueu-se, seu porte parecia mais alto que antes, seu rosto se desfigurou, de suas mãos saíam garras luminosas as quais na fraca luz pareciam uma coleção de facas afiadas. Os deuses tinham lhe dado Anistad para saciar sua sede de sangue.Traidores de sua benevolência eram punidos severamente pelo destino.
Quando Tífon ia desferir o seu golpe inicial adentra pela porta uma figura que o faz retrair instantaneamente para sua forma humana.Anistad vira-se assustado para o homem e depois para quem entrava, aguçou sua visão e notou que era sua filha, Ariadne, que correu em sua direção e, ao vê-lo ainda bem voltou-se para o estranho e esbravejou.
- Vieste buscá-lo, eu sei, mas enfrentarás antes a mim.O homem abaixa a cabeça e solta um riso alto contorcido pela sua mutação evidente.
- Bruxa, seus esforços não impedirão que minha missão seja cumprida. Por sua insolência levarei sua alma escravizada a mim.O mortal sem honra foi abatido rapidamente sob o olhar de terror da própria filha. Depois ele se vira toma a mulher em seus braços e desfaz sua forma para a humana, atira a cabeça para trás como se fosse alvejado por alguma arma e a solta atirando-a para um canto do recinto, sobre uma cadeira que se quebra sob o peso da queda.- Seu guardião será destruído!Surge entre ele e Ariadne a figura de um elemental de dimensões consideráveis à força que reunia num esforço ínfimo para sua sobrevivência, materializado através de seu pensamento dirigido para a vingança e o terror de ver seu próprio pai estraçalhado por aquele demônio. Então, duas feras se batem num duelo que por ventura daria o tempo para ela se recuperar da agressão e fugir. Ergueu-se titubeante, mas quando dirigia seus débeis passos para a porta da frente parou e virou-se, enquanto seu guardião sucumbia perante a força de Zarrel. Entendeu que não haveria fuga, nem lugar que a protegesse, resolveu ficar. Esperou até que tudo acabasse, e o ser elemental se desfizesse e o vencedor, ainda mais irado voltasse contra ela, que esperava impassível, sem medo.No momento em que se dirigia para atacá-la, observou a mudança, parou hesitante com suas garras a centímetros da garganta alva. Mas ele permanecia ainda em guarda, pois sabia que aquela aparência frágil guardava um poder, que ele reconheceu ali, combatendo aquele guardião. Ele desejou esse poder para ele, ela percebeu pelo olhar cobiçoso o que ele pretendia.
continua....

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